Fazer
teatro demanda coragem.
Não aquela coragem que precisamos para tirar as rodinhas da bicicleta, dar o primeiro beijo, sair da casa dos pais, encarar o primeiro dia de trabalho, e todas essas coisas.
Não aquela coragem que precisamos para tirar as rodinhas da bicicleta, dar o primeiro beijo, sair da casa dos pais, encarar o primeiro dia de trabalho, e todas essas coisas.
Fazer
teatro demanda aquela coragem, em primeiro lugar, de ir contra o que nos foi
reservado.
Raras
são as famílias que sonham em ter uma filha ou filho que queira fazer graduação
em artes cênicas. Raros são os professores que se orgulham de seus alunos
estudarem a arte do espetáculo na universidade.
A
sociedade teve todo um trabalho de planejar nossas vidas, desde que nascemos. O
primário, o fundamental, o médio, o cursinho, a universidade, o namoro, o
estágio, o noivado, o emprego estável, o casamento, a pós-graduação, o mesmo
emprego estável, a maternidade e, lá no final, a aposentadoria (me disseram que
esta última já não tem lugar garantido na lista).
Sabe,
não é nada incompreensível. É praticamente natural que os pais queiram para os
seus filhos, a princípio, uma profissão que prometa dinheiro. Porque é só com
dinheiro que se vive no Brasil. Sem ele, todo dia morremos um pouco: de estafa,
de discriminação, de falta de oportunidade, de fome.
Por
isso, quando digo que o teatro demanda aquela coragem de ir contra o que nos
foi reservado, falo sobre nadar contra a correnteza. Não qualquer uma: devo
salientar que estou falando de uma Senhora Correnteza. E nem todo mundo nasceu
com guelras.
Há
aqueles de nós que se afogam logo no início. Os músculos cansam, a mente cede, o
suor e as lágrimas somem na água, e de repente, não mais que de repente, já
somos mais um corpo no fundo do mar.
Eu,
particularmente, tenho sobrevivido aos últimos meses boiando. Ano passado, descobri
que me ensinaram o tipo errado de mergulho.
O
negócio é que, mesmo que você tenha começado a fazer teatro quando ainda não
sabia sequer soletrar a palavra palco, nada te dá noção do que é fazer teatro
como profissão.
Mesmo
que você tenha tido a mais variada gama de professores de arte dramática
durante a adolescência, ido a mais de cem peças com amigos arrastados pelo
cangote, ou apresentado em seis teatros diferentes, nada te dá noção do que é
fazer teatro como profissão.
Então,
apesar da minha trajetória dócil no mundo cênico e da minha enorme sorte de ter
pais que não se opuseram diretamente a minha escolha (o que já é um enorme
mérito, se considerarmos a normalidade), hoje eu estou aqui, boiando.
Como
comentei, me ensinaram o tipo errado de mergulho. Isso significa que eu perdi o
fôlego prematuramente e agora estou tomando um tempo sabático de cura na
superfície, para talvez um dia aprender a ficar debaixo d’água sem virar comida de
peixe.
Abrindo
mão da analogia por um momento, ocorre que no ano passado – 2017, para quem
ainda não está em janeiro – eu resolvi estrear no circuito comercial com a
primeira peça que escrevi e dirigi: Eu,
Zuzu Angel, agora milito.
Nem
preciso dizer que essa história ainda não encontrou seu final feliz. Se você
faz parte ou frequenta a cena artística da capital baiana, talvez saiba mais ou
menos como um espetáculo inteiro é capaz de ser descartado na antevéspera da
sua estreia.
Se você
não tem ideia do que eu estou falando, e se sua curiosidade, ócio ou interesse for
suficiente, saiba que pretendo contar em detalhes o que houve, eventualmente.
Na
versão de três linhas, trata-se de uma peça que começou com uma disciplina da
Escola de Teatro da UFBA e terminou com um uma ordem extrajudicial de um
escritório carioca de advocacia recebida via telegrama.
O ponto
é que, no alto dos meus imaturos vinte anos, na metade da graduação, eu ainda
não tinha me frustrado com teatro como a maioria dos meus colegas e
professores. Ainda não havia provado, eu mesma, o gostinho amargo do primeiro
trabalho que dá muito errado.
Sim, o
primeiro trabalho. Porque a tal noção do que é fazer teatro como profissão,
mencionada alguns parágrafos atrás, é quem te conta que, se você seguir com
essa teimosia insensata de fazer teatro, muitos de seus trabalhos vão dar
errado. Talvez a maioria deles.
Não é
nada demais, e você não é especial ou a pessoa mais azarada do mundo, visto que acontece quase que literalmente com todo mundo que mexe com isso. Mas o mais surpreendente
é que, quando finalmente dá certo, é provável que você não ganhe muita coisa. Talvez
não ganhe nada.
Sendo
assim, como é que a gente sobrevive? Estou perguntando para você: como é que a
gente sobrevive? Não olhe pra mim, eu também não sei. Lembre-se de que estou
boiando na superfície, por enquanto.
O que
eu sei é que não sobrevivemos de amor. Não interessa quantas vezes você ouviu
que o profissional de teatro – ou qualquer outra área extremamente
marginalizada pelo mercado – trabalha por amor ao que faz, mas já passou da
hora de parar de dar atenção a quem diz uma besteira dessas.
Amor
paga o aluguel? A conta de luz, água, internet? Amor paga o xerox da faculdade?
Amor paga a pauta do teatro, a confecção do figurino ou o prejuízo da produção?
Não.
Na
verdade, o amor é só mais um dos ingredientes que compõe o combustível que
alimenta quem faz teatro. O principal, como vimos, é a coragem. Agora vocês já
sabem de que coragem eu estou falando.
É a
coragem de não ganhar dinheiro. De não ter o emprego estável. De não ter o
reconhecimento monetário por horas e dias e meses de trabalho que, por vezes,
acabam escoando bueiro abaixo.
Isso
tudo posto, eu fico imaginando que deve haver algum tipo de justiça cósmica.
Sabe como nós procuramos conforto em crenças invisíveis aos olhos? Eu gosto de
fazer de conta que existe, de fato, uma energia kármica preenchendo o vazio
entre nossos corpos.
De vez
em quando, mas bem de vez em quando mesmo, eu vejo essa minha força inventada
agir. Hoje, exatamente nesta tarde do oitavo dia do ano, ela resolveu dar as
caras, materializando-se na forma de uma indicação muitíssimo especial do
Prêmio Braskem de Teatro, a mais tradicional premiação das artes cênicas
baianas.
Hoje,
na lista dos indicados, tive o imenso prazer de ler o nome de Letícia Bianchi
na categoria de Revelação. É por isso, inclusive, que escrevo esse texto.
Letícia
é minha amiga, fez parte de todo o processo de trabalho de Eu, Zuzu Angel, agora milito, e dirigiu o espetáculo Eudemonia, nascido daquela mesma disciplina
da Escola de Teatro, pelo qual foi indicada ao prêmio citado.
Há
muitos sentimentos pessoais misturados no minha satisfação excessiva, e uma
indicação, a princípio, é apenas uma indicação. Mas só quem passa pelo processo
que é dirigir um espetáculo sem nada além de pessoas com quem contar – você
sabe o que é precisar contar, de fato, com outras pessoas? É extremamente
delicado e imprevisível, para dizer o mínimo - e muito suor pra oferecer, pode
sentir essa alegria.
Só quem
está com os braços cansados de brigar com a correnteza e, ainda assim, continua
bem longe da areia, entende a importância de uma lufada de oxigênio.
Essa
lufada não chega pra todo mundo. Não chegou pra mim. A minha imensa satisfação
vem acompanhada de uma dor pontual, que reclama a perspectiva perdida do meu
tal trabalho interrompido. Mas, afinal, se chegasse pra todos, eu não precisaria escrever esse texto.
Eudemonia
é uma peça corajosa, que evoca a história de vida de Cassandra Rios, oferecendo
ao espectador uma janela para espiar os assuntos polêmicos que desfilam no
palco, vestidos ora de uma candura ímpar, ora de um humor mordaz.
Eudemonia
é uma peça dirigida por uma diretora em formação que merece toda a sua atenção.
Eudemonia
nasceu de um texto autoral que eu assino junto com Letícia, e só foi realizada
graças a uma equipe dedicada, escolhida a dedo pela diretora.
Eudemonia
é vivida por atrizes apaixonadas e ousadas, que merecem seus aplausos e, entre
as quais, uma foi também agradada com uma indicação ao Braskem – Isadora
Werneck concorre ao prêmio de melhor atriz.
Eudemonia
merece as indicações conquistadas e, quem sabe, te presenteie com a graça de um dia voltar em cartaz.
Voltar
em cartaz não é mais ou menos desafiador do que entrar em cartaz, o que me leva
de volta ao início.
Fazer
teatro demanda coragem.
Não
aquela coragem que precisamos para nos inscrevermos no curso de artes cênicas
no vestibular.
Fazer
teatro demanda aquela coragem, por fim e eternamente, de continuarmos seguindo
contra a correnteza, mantendo as lufadas de oxigênio em mente.
Assim
sendo, coloquem suas roupas de banho e segurem a respiração.
Como
não há previsão de destino, nos resta aproveitar o mergulho. Afinal, o nosso
corpo já é 60% água.