31.12.14

Despeço-me de ti

de repente
novamente
já é fim
despeça-te, sem pesares
definitivamente
de mim

na falta de outro desfecho
que fiquem esses versos malfeitos
e só
é só.

20.12.14

Quem me dera

Quem me dera ser igual você quando eu crescesse
Atrair, de repente, toda essa gama
De moça que quando passa, chama atenção
Sabe que quando você dança, o povo aclama
Compõe uma nova moda, outra canção
Só pra ver mais desse seu rebolado, de olho fechado
Cheio de graça de mulher moça garota menina 
Quem me dera ter essa tua voz rouca
Pra cochichar assim baixinho, no ouvido da rapaziada
Estender o canto até a mais alta madrugada
Encantar o mundo só dando risada
Inventar histórias antigas dos casos cos cabras
Quem me dera se me quisessem bem como quero a ti
E, quando duvidar, lembra: se eu tivesse só um minuto pra correr o mundo
Ainda te traria lembranças quantas quisesse
Na espera do abraço morno e agradecido que me desse
Aquela vontade de ser como costumava
De viver como você inda vive por aí
Perdida e solta na gente sadia
Nascida em mim

10.12.14

O Muro de Berlim não caiu por si

A angústia que me bate à porta veio de outro paralelo
Chacolha o meu e os nossos corpos,
Eriça o medo dos inocentes
Inocentes?

Tenta tirar o que Deus me deu
Me deu a contragosto porque não me aprecia
Nem a ti
Ninguém sai impune do reino da Terra

Fronte uma vastidão de elos perdidos,
Vou me perder também
Já não há o que reste aqui
O furdunço se aquietou pra fugir do açoite

Aquele cinza pálido e traiçoeiro, sabe aquele?
Há tempos deixou de ser convidativo
Cobre majestosa e impiedosamente os tijolos da extensa parede
Que nos barra e separa

Estamos no aguardo da queda,
Enquanto não me apercebo
De que não há indícios que o meu e nossos muros
Jamais cairão

Sem indícios, vai a esperança
Sem esperança, fica o nada
Se for pra viver barrada
Por que insisto aqui?

24.10.14

Quando foi que

Na sua lápide, gravaram Schopenhauer
Se engana quem o julga descansado
Na realidade, ele agoniza no pós-túmulo
Quer tomar o tempo de uma expiração alheia para si
Precisa que alguém lhe conceda esse tempo, pois tem feito falta
Quando foi que perdera os minutos?

Na última tarde parara para observar um motoqueiro se despedir do namorado
Era um rapaz, assim como ele próprio
Como poderia que fosse algo a mais?
Homem soava excessivamente pesado
Existe muito de pesado no mundo

Hoje de manhã caminhava sem saber que
Sem saber se encaminhava, na verdade - e lentamente -, para sua morte prematura
Desfecho certeiro para uma existência também emancipada

Talvez pudesse ter sido um prodígio
Mas não fora
Não sabia. Como saberia? Ninguém sabia
E já era tarde

19.10.14

Absinto

Noite gostosa, Santa Catarina
Que fez rodar e não querer voltar
Um mar que pedia ainda mais silêncio
Pra se fazer ouvido
Pois tinha o som lindo da paz derradeira

Semana boa, Santa Catarina
Que quis tanto que não voltássemos mais
Deixou o prelúdio da saudades do depois do fim
Dos amigos que já foram e estão por ir, que a vida esquece

A despeito daquela mania cigana de partir
Que não canso de levar comigo
Peço que continuem imaculadas as lembranças
E que se juntem aquelas outras
Perdidas no coral extenso e colorido do sobreviver

Talvez um dia eu te conte que te conhecer
Me deu vontade de voltar a viver como eu vivia
Enquanto isso, descansa, Florianópolis
Descansa que a tua semana decanta

18.9.14

Morra na filosofia

Pra que rimar amor e dor? Ao invés de ver o sol se pôr
Vamos parar, meu caro
Enquanto inda é tempo
Mas proteja sua mente da deterioração humana, tão puritana
Não tema ser fraco, porque assim já seria
Morra na filosofia,
Que é meu berço, meu leito, meu mar
Meu discurso final
Nossa maior desgraça, minha melhor delícia.

12.9.14

Pra lá não há

você não me espera, eu sei, eu sei que você não me espera
do outro lado desse turbilhão do florescer
não há ninguém no após, sei que estou sozinha no restart
e que talvez nunca venha alguém

mas por que, se eu quis tanto
e mastiguei as minhas ferrugens, e mudei a cor da minha retina
e engoli o resto com ácido
num gesto rápido
escasso

por que, se eu amei tanto, sem nunca ter aprendido como
e eu morri, e voltei zumbi
pra me dar, de novo, a essa estranheza
tão comum à mocidade
no fim, tá tudo o mesmo e não há ser vivo do outro lado
e eu sei - eu já sabia
e talvez goste
assim.

28.8.14

Já tarda


Hoje foi, mas depois
Não vem mais
Não cedo, rapaz
Preciso de paz
Eu não cedo de novo
Tão cedo; jamais.



25.7.14

Monstros

Tudo ao redor pega fogo, incendeia
Toco o meu corpo e desfaço em areia
Eles estão à espreita, com garras e dentes
Vão destruir o que houver pela frente

Reunidos, sádicos, na última ceia
De prato principal aquela triste sereia
Que costumava cantar, num choro que mente
E diz que consegue lidar com o que sente

Mas vê-se que é tarde, e já se semeia
Aquilo que ninguém no mundo nomeia
Ao longe e tão perto, o abismo estridente
Reino da chama, do falso e não quente

11.6.14

Canto de alerta

Sou dotada de loucura sem igual
E, por isso, cheia de receios
Meu tormento é quase musical
Meus fins não justificam os meios

Me esqueça enquanto é tempo
Porque aqui não é o seu lugar
Disseram que sou a pior das mulheres
Por quem você pode se apaixonar

Olhe bem por onde vai entrando
Não se esqueça de se apressar
Pois você vai se ver sangrando
E será incapaz de voltar

Não quero te fazer mal
Mas tenho a forte sensação
De que faço lavagem cerebral
Em quem me entrega o coração

Finalmente, cansei de me preocupar
Dar falsa voz a tantos anseios
Antes que alguém possa nos matar
Mergulhemos em nossos desejos

Se o mundo me fez assim
Quem sou eu pra resistir?
Se a tristeza já não tem fim
Fui feita para existir

16.5.14

de um tempo atrás

to delirando
e você, nesse agora desse momento, talvez fosse o único que eu acolheria ao meu delírio
deslizo minhas mãos sobre meus ombros
não entendo da vida O mundo me deixa tonta
enquanto outras mãos empurram os mesmos ombros
atravesso ruas lotadas de carros e luzes
embriagada, no auge da minha mais insana lucidez
mordo meus lábios até sangrar
de novo, aquelas imagens passam pelos meus olhos fechados
quem me vê de fora, não vê nada
cabelos bagunçados, sensações aguçadas, num frenesi desconhecido e temeroso
o que está acontecendo?
Tão longe do que secretamente busco alcançar Algo que esqueci de dizer a mim mesma
ouço dedos estralando Pescoços girando, meios sorrisos Escuro
quero roubar esse escuro
me jogo contra parede Escorregando devagar e agora arregalo os olhos
sinto falta da arte Meus poros gritam, sem voz, que preciso mergulhar antes que me afogue no ar humano
não sou desse mundo, mas posso me encontrar aqui Naqueles com quem posso dividir a paixão
os Loucos

3.3.14

O Delírio e a Morte

Era carnaval, mas Clemence se sentia só. 


No dia anterior ela tirara dezenas de fotos com sua velha e gasta câmera. Da multidão, das fantasias, dos rebolados, da embreaguez, das bebidas, das luzes, da ressaca. Todas em P&B. 

Após um tempo de análise  do material que estava na câmera, a menina soltou um suspiro angustiado. Ingênua, ela pensara que seria bom dar uma olhada nas fotos recém tiradas.  

Mas tudo estava saindo ao contrário: o preto e branco das fotos ria dela. Assim como as palavras de seus textos, os traços de seus desenhos, os acordes das suas músicas, o desafinado da sua cantoria, as falas das suas cenas. 

Nas últimas semanas, tudo ria dela. Clemence recostou a testa nos joelhos, desolada. O que estava acontecendo? Logo sentiu os olhos quentes de lágrimas. Estava, de novo, pensando no que não devia. Não sabia mais como evitar. Sentia algo pegajoso atolado no peito, que dificultava sua respiração. 

Deitou as costas na calçada onde estava e fechou os olhos. Sentia o que antes era uma leve dor de cabeça se tornando progressivamente mais forte, na medida que o trio elétrico daquela tarde fazia os carnavalescos ficarem mais e mais animados. Sentia a pele em contato com o chão sujo, os pelos do corpo eriçados por nenhum motivo aparente. Sentia cheiro de cerveja e de shampoo. Sentia a água lutando contra suas pálpebras fechadas.

Clemence foi assaltada por lembranças. Através do nada, ela enxergou um garoto de cabelos pretos e expressão risonha. Ele perguntou se ela queria ajuda para parar de chorar, ao que ela respondeu positivamente. E ele a beijou, puxando-a para si no exato momento em que ela dava um impulso e sentava em seu colo. Mordeu os lábios. 
Clemence dançava, ao som de uma música instrumental acompanhada apenas por vozes que sussurravam. Seus movimentos eram líquidos, seu fôlego instável. 
Clemence colocava um pé na frente do outro, enxergando tudo desfocado. Viu um cruzamento. Viu seu corpo ser atropelado uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes no total.  
Clemence estava de frente para um espelho sujo e rachado, apoiado numa pia de mármore frio onde também havia uma tesoura. Ela pegou a tesoura, segurou com uma das mãos uma longa mecha de seus cabelos, e a cortou na altura do queixo. Ficou olhando os fios caírem lentamente. 
Clemence apertava os ouvidos com força. Mas, na sua cabeça, muitas vozes soavam nitidamente. "Já é o segundo, em. Você é boa nisso" "Demônio, menina burra, cobra" "Parabéns! Parabéns, você é a mais nova prostituta do Bar Vestibulandas". 
Então de repente aquele mesmo garoto estava em pé na sua frente. Clemence procurava os olhos dele, mas ele desviava o olhar. Ela ergueu a palma da mão, devagar, e examinou os dedos. Tudo normal. Olhou apreensiva para o garoto. Ele não a via. 
Clemence agora batia à porta dum quarto com toda a força. Caiu de joelhos e apoiou as mãos no chão. A raiva lhe rasgava o peito. Ela ergueu a cabeça e gritou mais alto do que jamais gritara. Nenhum som saiu. 
Clemence estava numa fila não muito longa, esperando para ter os órgãos arrancados. Chegou sua vez. Olhou com curiosidade para a caixa cheia de pulmões e intestinos. Observou o cérebro ser puxado da cabeça, e o coração ser tirado do peito. Mas havia algo errado. Ela olhou para a moça que segurava seus órgãos. Eles estavam pretos.
Clemence escutou, atrás da porta, uma conversa entre o Delírio e a Morte. Ela não tinha medo da Morte. Porque, para ela, a morte significava nada. O absoluto nada. Delírio a agradava. Era muito mais assustador, e tinha uma voz baixa e tentadora. Delírio gostava de Clemence, ele a entendia. Já a Morte teria que aceitá-la de um jeito ou de outro. 

Blocos de carnaval se aproximavam. Clemence finalmente se levantou, tonta, e começou a caminhar devagar. Para todo o lado, lembranças. Ela sabia que devia ir para casa de alguém. Se esforçou para pensar em alguém que a acolhesse, e o esforço fez sua cabeça começar a latejar. O céu quase escuro parecia estar cada vez mais baixo, enquanto o chão subia mais e mais. Ela estava sufocando. Por que não sufocar de verdade?

Clemence se suicidou, atônita, naquela mesma noite de verão. 



14.2.14

Comptine d'Un Autre Été

"Bem como uma bola de fogo crescendo por dentro, se arrastando pelos cantos. Não sei mais onde guardá-la. Começou queimando meus órgãos, ferveu meu sangue, agora arde minha pele.

Me lembro de quando era pequeno e queria crescer pra poder mudar o mundo logo. Esse mundo errado que assombrava meu sono. Cresci. Cresci e não quero suportar a imutabilidade das coisas. Coisas intocáveis.

Sofro me desprezando por meu próprio sofrimento. Porque o sofrimento alheio é infinitamente maior. Como poderia me permitir sofrer, diante do que me cerca?

Dentro de mim explodem, gritando, as vontades. Mas o som também não tem mais lugar pra ficar. Não no meio do tanto que já ecoa.

Na rua, me fixo em rostos desconhecidos. Há uma maldição de olhar e ver mais do que está simplesmente ali. Deduzindo o passado, analisando o presente, imaginando o futuro de cada rosto novo. Querendo ir embora, sedento por mais.

O que fazer com uma alma pendurada em contradições?
De tudo, o mais importante: A arte foi meu sopro de vida. Meu espaço real, minha libertação. Foi começo, meu meio, meu fim."

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