20.12.15

Lua-vermelha-eclipsada // 27.09.2015

Nesse princípio de madrugada a lua avermelhou
Como alguém que se envergonha frente ao ser amado

Queria que esse-ser-amado fosse eu

Será que ela sabe que eu nunca me curei desse amor?
Desse querer estar lá
Sem poder chegar

Eu-sinto-muito por ainda não ter te alcançado

Mas nem por uma noite deixei de pensar em ti
De tentar te ver
E hoje te vi sangrando, sumindo e voltando
E todos pararam para olhar, pois - não sei se você sabe
Mas ao menor sinal da sua ausência o mundo treme
E aguarda
E anseia
E se alivia
E contempla

Assim como eu tenho feito desde-que-cheguei-aqui

O que tenho pra dizer hoje não diverge das tantas outras noites:
Durma bem, meu bem
Que eu já movi minha cama e meu corpo para sonhar mais perto de ti

19.12.15

Carta aberta à Deus

Caro Deus,

acho que é tempo de finalmente termos uma conversa. Resolvi te escrever, e devo começar com uma confissão: eu não creio que você de fato exista. Espero que você não leve minha descrença como ofensa pessoal. De qualquer forma, não sou cética. E, caso você esteja por aí, aqui vai o que preciso te dizer...

Deus, eu sou uma moça sortuda e muito privilegiada. Tive uma infância repleta de amor; tenho duas irmãs e três irmãos; e meus pais são os melhores do mundo. Isso significa que cresci feliz e, mais importante ainda, muito amada. Hoje sou moça e moro sozinha, a mais de mil quilômetros da minha família. Você vê, Deus, eu fui criada para ser independente, livre, e curiosa. Precisava voar o primeiro vôo, e voei. E aí que começou o problema.

Na verdade, o buraco é mais embaixo, mas eu chego lá. A questão é que eu vim pra longe, longe demais, e sozinha. Já não estou sob a proteção silenciosa e reconfortante dos meus pais, vulgo meus super-heróis. E eu não sei se você sabe, Deus, mas por aqui a vida anda particularmente difícil para as mulheres. Estamos vivendo numa guerra constante, juntando forças com irmãs que nem conhecemos.

Quando eu voei para um lugar totalmente novo, não se engane: nada mudou. Eu continuo sendo assediada diariamente por homens que eu não conheço. Eu continuo sendo magoada semanalmente por homens que eu conheço, e que não entendem (como poderiam, não é mesmo?) a dor de ser mulher. Eu continuo rezando para o universo poupar, talvez só por hoje, alguma menina de ser abusada.

O que acontece é que agora eu já não tenho por perto minha mãe, pra descansar a cabeça no colo dela depois de um dia longo, e receber uma nova dose de esperança, que ela ministra sem nem saber. Eu já não posso encontrar dentro dos olhos dela, dia sim, dia não, uma força que ela nem sabe que tem, e que eu sei que está em mim também, porque afinal há tanto dela em mim.

Acontece agora que eu não tenho mais meu pai constantemente presente como um exemplo de pai, de homem. Não há mais a sorte de poder receber colo no momento em que preciso, e ouvir ele cantar "valsa para uma menininha" até eu chorar, e ter certeza que nada pode me machucar enquanto eu ouvir aquela canção. Outra injeção de comodidade perdida.

Bom, com essa falta, veio a abstinência. E a abstinência coincidiu com um tempo em que, como eu disse, as coisas andam particularmente difíceis para nós mulheres. Sabe Deus, nós estamos juntando vozes, e o coro é belo e feroz. Mas é tão doloroso... É uma dor conjunta. Coletiva. Compartilhada. Somada. Multiplicada.

Eu tenho mais de cinco amigas que foram es tu pra das; mais de uma dúzia e meia de amigas que foram a bu sa das; e nenhuma que jamais tenha sido assediada. Eu tenho mais de uma irmã que não pude proteger deles quando julguei preciso.

Nesses meses as feridas foram abertas e pressionadas. Nesses meses, pela primeira vez, eu não consegui passar reto e fingir não ouvir o comentário dos homens. Esses comentários que são tão bobos e naturalizados, e que representam tanto uma cultura de opressão que resiste. Eu não consegui chegar bem comigo mesma em casa, agindo como se fosse tudo normal. Pela primeira vez, eu senti um ódio tão grande que não parecia ser meu. Ímpeto. Raiva. Descontrole.

Então, antes de chegar na faculdade para a primeira aula da manhã, eu já tinha feito um escândalo com o vassoureiro que me chamou de boneca gostosa. Eu parti pra cima dele, e gritei perguntando se ele tinha filhas, se ele sabia que as filhas dele também eram assediadas todos os dias. Deve ter sido ridículo.

E aí, na volta do almoço, eu já tinha feito meu segundo escândalo, com um homem que estava parado no ponto de ônibus e achou que podia tocar minhas costas e dizer que me chupava toda. Esse não se conformou em ser confrontado em público, e eu segui meu caminho enquanto ele gritava que minha mãe não tinha me dado educação. Mal sabe ele.

Foi assim que finalmente, meia hora depois do ponto de ônibus, eu caí em prantos e choros quando o companheiro de uma moça desconhecida no mercado me olhou bem devagar, de baixo a cima, lambeu a boca, e murmurou algo ininteligível.

Deus, talvez eu tenha pecado pelo meu ódio e minha vontade de causar dor. Mas pelo sim ou pelo não, devo confessar que sei me cuidar, e que se chegar o dia em que eu realmente precise me defender, eu posso até ir pro inferno, mas definitivamente levo junto comigo o meu agressor. Mas o receio é que um dia, na tentativa de proteger uma moça conhecida ou não, eu faça além do necessário para salvá-la. Gratuitamente, pelo prazer da vingança. Pior ainda: o grande receio é que eu não consiga fazer nada. Nada que de fato provoque mudança. Afinal, todas nós já sentimos que não há nada a se fazer.

Finalmente, agora que você sabe a história toda, eu quero te fazer um pedido. Não é um pedido qualquer, mas espero que você considere com cuidado. Não tenho certeza se você está a par do que a humanidade já fez em seu nome, Deus. Mas foram crueldades históricas, que marcaram o passado da raça humana com sangue inocente, e que ainda estão repercutindo no presente. Ainda há muito sangue novo sendo derramado, e é por isso que eu preciso te pedir, Deus: por favor, conte a verdade.

Conte a verdade sobre você. Sobre quem você foi e quem você é, da onde você veio, e o que você prega. Conte a verdade sobre o que é o amor ao próximo, o respeito. Mas principalmente, e espero que você não fique constrangido com esse apelo, conte a verdade sobre Eva e Adão. Porque nós dois sabemos, Deus, que eu não vim da costela de homem nenhum.

Eu vim do útero da minha mãe. Eu nasci dos berros de dor dela que rasgaram o inverno durante as primeiras contrações. Eu vim dos enjôos, das lágrimas, dos afagos, dos nutrientes que ela me proveu durante nove meses. Eu nasci do útero, palavra que etimologicamente refere-se a histeria, termo mais tarde usado para definir uma doença. Eu vim da histeria da minha mãe, da coragem dela de seguir em frente enquanto quando a acusaram de ser histérica. Eu comecei a existir dentro de uma mulher, e só respirei pela primeira vez graças a (não a Deus) força dela. Ela. Minha mãe. Mulher.

Por isso eu sei da incômoda verdade que, por algum motivo, você mascarou sob a ilusão de que a mulher veio do homem como companheira, como fuga da solidão, como o meio de gerar descendentes. Não. A mulher veio da mulher, e o homem também. E assim que é, até hoje. Somos sim netas das bruxas que não conseguiram queimar.

Porque fomos nós, mulheres, que parimos os homens que estupram uma a cada cinco mulheres no meu país. Fomos nós que parimos aqueles que nos violentam dentro de nossas casas. Que nos fazem acreditar que somos as culpadas por todo o desrespeito, abuso, assédio, e violência. Vieram de mulheres homens que hoje pensam que está tudo bem. Fomos nós que demos início a raça humana, e somos nós que podemos acabar com ela. E acredite, Deus, eu posso não viver pra ver isso, mas se necessário for, nós acabaremos.

Conte a verdade, te peço, e conte também a verdade sobre você. A verdade absoluta. Aquela mesma. Porque se você é Deus e não Deusa; você veio de uma Deusa. E já passou da hora da humanidade saber que há uma Deusa, se não várias, e que ela não deixará a injustiça seguir por muito mais tempo. Porque ELA sim tem a força implacável da mãe natureza, e a coragem de uma mulher - das deusas mulheres que lutam agora. E não sei você, mas eu aprendi com a mitologia grega que os deuses podem ser extremamente vingativos.

Isso é um apelo, Deus. Apelo profundo, sincero, e ansioso. A data é oportuna, o natal se aproxima, e quero que você exponha esse nosso segredo para todos. Eu resolvi que era hora de fazer minha parte. E sobre aquele meu ódio, não se preocupe demais: no fundo, tenho encontrado o mínimo de apaziguação que preciso nas minhas irmãs espalhadas pela Terra. Nada disso é em vão.

Espero que esta chegue em suas mãos logo.

Com esperança,

Sophia.










5.10.15

Eu estou morrendo

Eu estou morrendo. E por estar morrendo, decidi morrer. Às vezes, quando a natureza pede, a alma se compadece. Como uma filha se compadece da mãe. Da mãe que abdicou, por escolha ou não, de tudo aquilo que era e tinha, para ser mãe. E o que eu estou fazendo não é nada além disso: uma escolha. Talvez eu possa até dizer que é para o meu próprio bem. Definitivamente é para o bem do mundo. Menos um universo preso em corpo humano, querendo escapar. Imaginem a força necessária para conter nossos universos dentro de nós. Quem faz essa força? Não sei dizer, mas escolhi proporcionar alívio para esse algo ou alguém. E para mim mesma, claro. Sim, é para o meu próprio bem. Não quero viver dessa maneira. Não quero ter esperança, não quero ter vazio, não quero machucar quem eu mais amo. Não quero ser alvo das incontáveis expectativas de todos que me rodeiam. Não quero ser a razão das frustrações alheias. Não quero entrar para essa teia da humanidade. Não quero alterar a realidade a partir dos meus pensamentos e ações. Não. Eu quero que tudo se mantenha da forma que se manteria caso eu nunca tivesse existido. Sim, é por isso que deixarei de existir. Eu quero apagar os traços do meu rosto, dos meus sorrisos e lágrimas. Eu quero limpar a memória daqueles que já me ouviram gritar, que já me abraçaram e me sentiram em seus corpos, que já tocaram meus lábios, minha alma ou o meu coração. Eu quero que me esqueçam por completo todos aqueles que já me fizerem tremer, rir, amar, gemer, fugir. Quero que sumam do tempo e espaço todos os sóis que eu vi nascer e morrer, todas as chuvas que eu tomei por ou sem querer, toda a raiva e beleza que eu vi e vivi. Quero que tudo aquilo que eu fui se destrua rapidamente, brutalmente, levando junto todas as possibilidades do que eu viria a ser. Quero sumir no mundo como some um grão de areia levado ao mar pelo vento. Quero ouvir dizer que meu corpo se desfez no oceano, deteriorou-se sozinho, sem ter sido visto ou ingerido por nenhum outro bicho que pudesse, de alguma forma, dar continuidade às minhas células, à lembrança do meu existir. Depois quero ouvir dizer que ninguém mais sabe qual é meu nome, nem a cor dos meus olhos, nem o timbre da minha voz. Quero ter certeza de que o cordão que me ligava a vida não foi rompido, pois nunca existiu. Quero a paz de saber que meus tecidos nunca cresceram, que aquele óvulo culpado nunca foi fecundado. Enfim, quero ouvir o nada. O nada que não é som, nem silêncio, que é apenas nada. E que significa simplesmente que tudo está acabado. Que eu realmente nunca existi, para ninguém, nem para mim mesma. Saberei então que estou perdendo a consciência, que estou finalmente parando de sentir, que estou abrindo mão de tudo o que já se passou na minha cabeça, de cada canto obscuro ou iluminado da minha mente. Que estou perdendo minha alma, que estou morrendo uma morte transcendente, que resignifica o misterioso conceito de morrer. Será que vai doer? Tanto faz. Pois antes de ter essa última dúvida, antes do último suspiro, antes de qualquer arrependimento, antes do medo, já é nada. E nada será por toda a eternidade. Apenas nada. E que alívio...

19.8.15

Qui étourdit

Deitei no quarto ouvindo A minha música francesa favorita Com o hálito do não ser da tua presença no meu pescoço Parecia que alguém me tocava Poderia ser algo vindo das estrelas Poderia ser eu Formou-se um gif psicodélico no teto A luz se extinguiu Agora mesmo enquanto organizo as letras desse amontoado Aquela imagem estonteante desce lenta E rapidamente Me afoga Mesmo que eu tente me salvar Não consigo Algemei os pulsos no lençol.

Teu primeiro erro foi anotar meu telefone

Teu cheiro tem uma profundidade que me leva a loucura tal qual todo aquele ecstasy que eu nunca tomei
Sobe feito flecha pra minha mente e impregna cada aresta de pensamento que possuo
É teu feitiço mais poderoso, que me ganha e me rende
Só pra você me colocar num palco lotado de humanos
E me deixar devaneando sob a tua onda possessa de aroma
Enquanto tantos tantos tantos olhos me olham hipnotizados
Virei sua atração principal
Mas por que você não divide o lucro comigo?
Me larga entregue nua em mãos de algum deus no qual você nem sequer crê
E me encontro sujeita a acordar por mil e uma noites sem ninguém ao meu lado
Mas nessa noite você cometeu o teu segundo maior erro
Pois me entregou a morfeu, logo a morfeu, amor
E eu sonhei com o que está por vir
Eu vi o dia em que você cairá na maldição do meu encanto
Vi o nosso amor brotar e cometer suicídio com uma crueldade de acovardar Medeia
Visão tal que quase me cega, meu bem...
Por isso que agora te desconcerto com meu ar radiante de quem espera pacientemente
Sinto muito.

17.8.15

Geração XYZCristal

Nós deveríamos estar dormindo, mas há um derrame de fertilidade acontecendo, e sempre abdicamos do sono para essas ocasiões
Posso sentir o gosto se espalhando na minha boca
Como um beijo longo depois de uma maçã
É a aurora boreal
Ela desce o olhar sob as últimas gerações de humanos
E cá estamos nós, c r i s t a i s  líquidos
Absorvendo as novas cores do conhecimento como quem toma sol no jardim do éden
Hei de sonhar com sacerdotisas essa noite.

A arte imita a vida

Anseio por consumar minhas cenas de cinema
Você me olha de lado pensando no que eu penso
Ainda não descobrimos que as imagens são as mesmas
É tarde, mas é meia-luz
Nós nascemos para esse momento
Fôlego eriçado
E aquele cheiro insustentável de cabelos molhados
Não me deseje bom dia nunca mais
Se não for para acordar com o seu toque percorrendo minhas costas.

15.6.15

Vida urbana

Um gato de pelagem branca
e uma estranha de cabelos arruivados
Trocaram
no silêncio de uma colina vazia
um longo olhar
de pretensões e entendimentos desconhecidos
Trocaram um longo olhar
extenso demais para ser considerado uma causalidade
E
portanto
considerado uma causalidade. 


Um homem sentou-se numa cafeteria
Pediu um chope
Flertou levemente com alguém ali perto
Sem ser desatento com seus amigos
Pensou sobre o intrigante risco
ao qual todos ali se subjugaram quando saíram de casa num fim de tarde
com conhecida previsão de chuva torrencial
Observou o zoólogico humano instaurado naquele pequeno grande salão
Notou o alvo de seu flerte insinuando olhares para um terceiro
entendeu que fazia todo sentido sair para ficar preso pela chuva
E fez disso seu ritual primordial.

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