5.10.15

Eu estou morrendo

Eu estou morrendo. E por estar morrendo, decidi morrer. Às vezes, quando a natureza pede, a alma se compadece. Como uma filha se compadece da mãe. Da mãe que abdicou, por escolha ou não, de tudo aquilo que era e tinha, para ser mãe. E o que eu estou fazendo não é nada além disso: uma escolha. Talvez eu possa até dizer que é para o meu próprio bem. Definitivamente é para o bem do mundo. Menos um universo preso em corpo humano, querendo escapar. Imaginem a força necessária para conter nossos universos dentro de nós. Quem faz essa força? Não sei dizer, mas escolhi proporcionar alívio para esse algo ou alguém. E para mim mesma, claro. Sim, é para o meu próprio bem. Não quero viver dessa maneira. Não quero ter esperança, não quero ter vazio, não quero machucar quem eu mais amo. Não quero ser alvo das incontáveis expectativas de todos que me rodeiam. Não quero ser a razão das frustrações alheias. Não quero entrar para essa teia da humanidade. Não quero alterar a realidade a partir dos meus pensamentos e ações. Não. Eu quero que tudo se mantenha da forma que se manteria caso eu nunca tivesse existido. Sim, é por isso que deixarei de existir. Eu quero apagar os traços do meu rosto, dos meus sorrisos e lágrimas. Eu quero limpar a memória daqueles que já me ouviram gritar, que já me abraçaram e me sentiram em seus corpos, que já tocaram meus lábios, minha alma ou o meu coração. Eu quero que me esqueçam por completo todos aqueles que já me fizerem tremer, rir, amar, gemer, fugir. Quero que sumam do tempo e espaço todos os sóis que eu vi nascer e morrer, todas as chuvas que eu tomei por ou sem querer, toda a raiva e beleza que eu vi e vivi. Quero que tudo aquilo que eu fui se destrua rapidamente, brutalmente, levando junto todas as possibilidades do que eu viria a ser. Quero sumir no mundo como some um grão de areia levado ao mar pelo vento. Quero ouvir dizer que meu corpo se desfez no oceano, deteriorou-se sozinho, sem ter sido visto ou ingerido por nenhum outro bicho que pudesse, de alguma forma, dar continuidade às minhas células, à lembrança do meu existir. Depois quero ouvir dizer que ninguém mais sabe qual é meu nome, nem a cor dos meus olhos, nem o timbre da minha voz. Quero ter certeza de que o cordão que me ligava a vida não foi rompido, pois nunca existiu. Quero a paz de saber que meus tecidos nunca cresceram, que aquele óvulo culpado nunca foi fecundado. Enfim, quero ouvir o nada. O nada que não é som, nem silêncio, que é apenas nada. E que significa simplesmente que tudo está acabado. Que eu realmente nunca existi, para ninguém, nem para mim mesma. Saberei então que estou perdendo a consciência, que estou finalmente parando de sentir, que estou abrindo mão de tudo o que já se passou na minha cabeça, de cada canto obscuro ou iluminado da minha mente. Que estou perdendo minha alma, que estou morrendo uma morte transcendente, que resignifica o misterioso conceito de morrer. Será que vai doer? Tanto faz. Pois antes de ter essa última dúvida, antes do último suspiro, antes de qualquer arrependimento, antes do medo, já é nada. E nada será por toda a eternidade. Apenas nada. E que alívio...

19.8.15

Qui étourdit

Deitei no quarto ouvindo A minha música francesa favorita Com o hálito do não ser da tua presença no meu pescoço Parecia que alguém me tocava Poderia ser algo vindo das estrelas Poderia ser eu Formou-se um gif psicodélico no teto A luz se extinguiu Agora mesmo enquanto organizo as letras desse amontoado Aquela imagem estonteante desce lenta E rapidamente Me afoga Mesmo que eu tente me salvar Não consigo Algemei os pulsos no lençol.

Teu primeiro erro foi anotar meu telefone

Teu cheiro tem uma profundidade que me leva a loucura tal qual todo aquele ecstasy que eu nunca tomei
Sobe feito flecha pra minha mente e impregna cada aresta de pensamento que possuo
É teu feitiço mais poderoso, que me ganha e me rende
Só pra você me colocar num palco lotado de humanos
E me deixar devaneando sob a tua onda possessa de aroma
Enquanto tantos tantos tantos olhos me olham hipnotizados
Virei sua atração principal
Mas por que você não divide o lucro comigo?
Me larga entregue nua em mãos de algum deus no qual você nem sequer crê
E me encontro sujeita a acordar por mil e uma noites sem ninguém ao meu lado
Mas nessa noite você cometeu o teu segundo maior erro
Pois me entregou a morfeu, logo a morfeu, amor
E eu sonhei com o que está por vir
Eu vi o dia em que você cairá na maldição do meu encanto
Vi o nosso amor brotar e cometer suicídio com uma crueldade de acovardar Medeia
Visão tal que quase me cega, meu bem...
Por isso que agora te desconcerto com meu ar radiante de quem espera pacientemente
Sinto muito.

17.8.15

Geração XYZCristal

Nós deveríamos estar dormindo, mas há um derrame de fertilidade acontecendo, e sempre abdicamos do sono para essas ocasiões
Posso sentir o gosto se espalhando na minha boca
Como um beijo longo depois de uma maçã
É a aurora boreal
Ela desce o olhar sob as últimas gerações de humanos
E cá estamos nós, c r i s t a i s  líquidos
Absorvendo as novas cores do conhecimento como quem toma sol no jardim do éden
Hei de sonhar com sacerdotisas essa noite.

A arte imita a vida

Anseio por consumar minhas cenas de cinema
Você me olha de lado pensando no que eu penso
Ainda não descobrimos que as imagens são as mesmas
É tarde, mas é meia-luz
Nós nascemos para esse momento
Fôlego eriçado
E aquele cheiro insustentável de cabelos molhados
Não me deseje bom dia nunca mais
Se não for para acordar com o seu toque percorrendo minhas costas.

15.6.15

Vida urbana

Um gato de pelagem branca
e uma estranha de cabelos arruivados
Trocaram
no silêncio de uma colina vazia
um longo olhar
de pretensões e entendimentos desconhecidos
Trocaram um longo olhar
extenso demais para ser considerado uma causalidade
E
portanto
considerado uma causalidade. 


Um homem sentou-se numa cafeteria
Pediu um chope
Flertou levemente com alguém ali perto
Sem ser desatento com seus amigos
Pensou sobre o intrigante risco
ao qual todos ali se subjugaram quando saíram de casa num fim de tarde
com conhecida previsão de chuva torrencial
Observou o zoólogico humano instaurado naquele pequeno grande salão
Notou o alvo de seu flerte insinuando olhares para um terceiro
entendeu que fazia todo sentido sair para ficar preso pela chuva
E fez disso seu ritual primordial.

3.5.15

Oração

Na minha fraqueza eu penso que jamais poderia escolher te deixar ir
vou sentar aqui e pedir para o Deus no qual você crê tão piamente te faça feliz
tenho medo de que tudo se torne apenas uma memória
me assusta imaginar uma vida onde o comum seja a tua eterna ausência
quando, a princípio, um único fugaz momento sem tua áurea aqui me parece o fim dos tempos
o que posso fazer?
se você me desse um sinal qualquer de que há algo para garantir que estará bem
talvez até melhor
eu abandonaria minha identidade,
eu mergulharia em magma,
eu seria mais corajosa do que os heróis que ainda não foram escritos
porque eu te amo
 
E quem nos ensinou a amar?
foi você, eu sei
e se você for
eu me lembrarei sempre



2.5.15

Peace

she didn't know what to do with all that happiness
so she would put her green headphones on and walk down the streets
smiling to strangers
buying fruits
and kicking little rocks

she also didn't know what to do sunday afternoon
so she would turn on her computer and start talking shit with her friends
maybe write some letters to her beloveds

she had no ideas for that rainy night of insomnia
so she would watch a bunch of really scary movies just to say that they weren't scary at all

and before going to bed, she would always look up to any airplane that was crossing the heavens
and wonder who would be sitting there

in this messy mix of not knowing, she knew only one thing
she would miss herself 

30.3.15

Águas de março

sua dança é uma bétula crescendo ao lado do meu corpo nu
estirado sob o luar
enquanto olho as estrelas
e penso que elas fazem juz ao número de possibilidades que passam no vazio agridoce das nossas mentes
sua dança é também liberdade
e vapor d'água pra minha garganta ora sedenta, ora com sede
-
caminhou lentamente em direção a lápide
enquanto o moço loiro ajoelhava um pouco a frente
apoiando no queixo um violino
que em tudo legitimava a sua qualidade inexplicável de anjo
-
cigana recém chegada querendo saber o que há de bom
dentro de poucos dias já se fazia em casa
e foi de tanto grado que ali resolveu até mesmo dar um tempo
mas toda vez que passa o circo ela vai viajar
e se faz inda mais viva


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