27.9.12

Fogo que arde e se vê.

     O vento uivava na janela, a luz oscilava, a goteira produzia ruídos alternados e incômodos, enquanto a chaleira apitava no fogão. Toda a instabilidade da cena era embalsada por chamas raras. Um fogo ardente, terrivelmente poderoso, que urrava como o vento e se espalhava com a força dos mares, começou a percorrer cada veia dela.
     E aquele fogo tomava conta de cada poro de seu corpo, e suas vontades já não eram suas, nem sua mente equilibrada como de costume. O outro também exalava chamas, e, de coração acelerado e pensamentos confusos, tentava avaliar a situação, mas já não possuía a sensatez habitual.
     Talvez fosse instinto, talvez tudo. Alguns gritariam: "É o amor, com a força do universo pronta para derrubar qualquer barreira e sacudir as molduras do infinito. É amor!". Mas o que realmente se apossava de seus corpos era impossível de se imaginar, retratar, ou sequer de se pensar! O que reinava de fato era apenas a sensação, falsa e momentânea, porém eterna e muito mais que apenas real.
      E então, à beira da loucura, o calor subiu aos olhos, e ambos se encontraram. Era vivo. Era vivo e era visível!  Como a intensidade de tudo, do comum ao completo desconhecido, estivesse ali, por trás de seus olhos, presa, estática, duradoura, arrebatadora, e inacreditavelmente visível. Eram chamas descontroladas em sua repressão. 
      Conceitos, regras, metáforas ou lindos versos, crenças e opiniões, pensamentos profundos e análises complexas, ou a simplicidade leve e bela, nada, nada mais se fazia necessário ou presente. Bastava um olhar. Um olhar apurado, aberto e preparado. Não só preparado, mas completamente pronto para ter coragem de admitir aquilo que escapa aos limites mentais e corpóreos de um ser humano, guiado pelos valores e pelas experiências de toda uma vida. Um olhar, e tudo se fazia resto. Porque era visível.
         Era visível, e era imenso.

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