8.1.18

Sobre fazer teatro: coloquem suas roupas de banho, e segurem a respiração.

Fazer teatro demanda coragem.

            Não aquela coragem que precisamos para tirar as rodinhas da bicicleta, dar o primeiro beijo, sair da casa dos pais, encarar o primeiro dia de trabalho, e todas essas coisas.

Fazer teatro demanda aquela coragem, em primeiro lugar, de ir contra o que nos foi reservado. 

Raras são as famílias que sonham em ter uma filha ou filho que queira fazer graduação em artes cênicas. Raros são os professores que se orgulham de seus alunos estudarem a arte do espetáculo na universidade.

A sociedade teve todo um trabalho de planejar nossas vidas, desde que nascemos. O primário, o fundamental, o médio, o cursinho, a universidade, o namoro, o estágio, o noivado, o emprego estável, o casamento, a pós-graduação, o mesmo emprego estável, a maternidade e, lá no final, a aposentadoria (me disseram que esta última já não tem lugar garantido na lista).  

Sabe, não é nada incompreensível. É praticamente natural que os pais queiram para os seus filhos, a princípio, uma profissão que prometa dinheiro. Porque é só com dinheiro que se vive no Brasil. Sem ele, todo dia morremos um pouco: de estafa, de discriminação, de falta de oportunidade, de fome.

Por isso, quando digo que o teatro demanda aquela coragem de ir contra o que nos foi reservado, falo sobre nadar contra a correnteza. Não qualquer uma: devo salientar que estou falando de uma Senhora Correnteza. E nem todo mundo nasceu com guelras.

Há aqueles de nós que se afogam logo no início. Os músculos cansam, a mente cede, o suor e as lágrimas somem na água, e de repente, não mais que de repente, já somos mais um corpo no fundo do mar.

Eu, particularmente, tenho sobrevivido aos últimos meses boiando. Ano passado, descobri que me ensinaram o tipo errado de mergulho.

O negócio é que, mesmo que você tenha começado a fazer teatro quando ainda não sabia sequer soletrar a palavra palco, nada te dá noção do que é fazer teatro como profissão.

Mesmo que você tenha tido a mais variada gama de professores de arte dramática durante a adolescência, ido a mais de cem peças com amigos arrastados pelo cangote, ou apresentado em seis teatros diferentes, nada te dá noção do que é fazer teatro como profissão.

Então, apesar da minha trajetória dócil no mundo cênico e da minha enorme sorte de ter pais que não se opuseram diretamente a minha escolha (o que já é um enorme mérito, se considerarmos a normalidade), hoje eu estou aqui, boiando.

Como comentei, me ensinaram o tipo errado de mergulho. Isso significa que eu perdi o fôlego prematuramente e agora estou tomando um tempo sabático de cura na superfície, para talvez um dia aprender a ficar debaixo d’água sem virar comida de peixe.

            Abrindo mão da analogia por um momento, ocorre que no ano passado – 2017, para quem ainda não está em janeiro – eu resolvi estrear no circuito comercial com a primeira peça que escrevi e dirigi: Eu, Zuzu Angel, agora milito.

            Nem preciso dizer que essa história ainda não encontrou seu final feliz. Se você faz parte ou frequenta a cena artística da capital baiana, talvez saiba mais ou menos como um espetáculo inteiro é capaz de ser descartado na antevéspera da sua estreia.

Se você não tem ideia do que eu estou falando, e se sua curiosidade, ócio ou interesse for suficiente, saiba que pretendo contar em detalhes o que houve, eventualmente.

Na versão de três linhas, trata-se de uma peça que começou com uma disciplina da Escola de Teatro da UFBA e terminou com um uma ordem extrajudicial de um escritório carioca de advocacia recebida via telegrama.

O ponto é que, no alto dos meus imaturos vinte anos, na metade da graduação, eu ainda não tinha me frustrado com teatro como a maioria dos meus colegas e professores. Ainda não havia provado, eu mesma, o gostinho amargo do primeiro trabalho que dá muito errado.

Sim, o primeiro trabalho. Porque a tal noção do que é fazer teatro como profissão, mencionada alguns parágrafos atrás, é quem te conta que, se você seguir com essa teimosia insensata de fazer teatro, muitos de seus trabalhos vão dar errado. Talvez a maioria deles.

Não é nada demais, e você não é especial ou a pessoa mais azarada do mundo, visto que acontece quase que literalmente com todo mundo que mexe com isso. Mas o mais surpreendente é que, quando finalmente dá certo, é provável que você não ganhe muita coisa. Talvez não ganhe nada.

Sendo assim, como é que a gente sobrevive? Estou perguntando para você: como é que a gente sobrevive? Não olhe pra mim, eu também não sei. Lembre-se de que estou boiando na superfície, por enquanto.

O que eu sei é que não sobrevivemos de amor. Não interessa quantas vezes você ouviu que o profissional de teatro – ou qualquer outra área extremamente marginalizada pelo mercado – trabalha por amor ao que faz, mas já passou da hora de parar de dar atenção a quem diz uma besteira dessas.

Amor paga o aluguel? A conta de luz, água, internet? Amor paga o xerox da faculdade? Amor paga a pauta do teatro, a confecção do figurino ou o prejuízo da produção? Não.

Na verdade, o amor é só mais um dos ingredientes que compõe o combustível que alimenta quem faz teatro. O principal, como vimos, é a coragem. Agora vocês já sabem de que coragem eu estou falando.

É a coragem de não ganhar dinheiro. De não ter o emprego estável. De não ter o reconhecimento monetário por horas e dias e meses de trabalho que, por vezes, acabam escoando bueiro abaixo.

Isso tudo posto, eu fico imaginando que deve haver algum tipo de justiça cósmica. Sabe como nós procuramos conforto em crenças invisíveis aos olhos? Eu gosto de fazer de conta que existe, de fato, uma energia kármica preenchendo o vazio entre nossos corpos.

De vez em quando, mas bem de vez em quando mesmo, eu vejo essa minha força inventada agir. Hoje, exatamente nesta tarde do oitavo dia do ano, ela resolveu dar as caras, materializando-se na forma de uma indicação muitíssimo especial do Prêmio Braskem de Teatro, a mais tradicional premiação das artes cênicas baianas.

Hoje, na lista dos indicados, tive o imenso prazer de ler o nome de Letícia Bianchi na categoria de Revelação. É por isso, inclusive, que escrevo esse texto.

Letícia é minha amiga, fez parte de todo o processo de trabalho de Eu, Zuzu Angel, agora milito, e dirigiu o espetáculo Eudemonia, nascido daquela mesma disciplina da Escola de Teatro, pelo qual foi indicada ao prêmio citado.

Há muitos sentimentos pessoais misturados no minha satisfação excessiva, e uma indicação, a princípio, é apenas uma indicação. Mas só quem passa pelo processo que é dirigir um espetáculo sem nada além de pessoas com quem contar – você sabe o que é precisar contar, de fato, com outras pessoas? É extremamente delicado e imprevisível, para dizer o mínimo - e muito suor pra oferecer, pode sentir essa alegria.
           
Só quem está com os braços cansados de brigar com a correnteza e, ainda assim, continua bem longe da areia, entende a importância de uma lufada de oxigênio.

Essa lufada não chega pra todo mundo. Não chegou pra mim. A minha imensa satisfação vem acompanhada de uma dor pontual, que reclama a perspectiva perdida do meu tal trabalho interrompido. Mas, afinal, se chegasse pra todos, eu não precisaria escrever esse texto.

Eudemonia é uma peça corajosa, que evoca a história de vida de Cassandra Rios, oferecendo ao espectador uma janela para espiar os assuntos polêmicos que desfilam no palco, vestidos ora de uma candura ímpar, ora de um humor mordaz. 

Eudemonia é uma peça dirigida por uma diretora em formação que merece toda a sua atenção.

Eudemonia nasceu de um texto autoral que eu assino junto com Letícia, e só foi realizada graças a uma equipe dedicada, escolhida a dedo pela diretora.

Eudemonia é vivida por atrizes apaixonadas e ousadas, que merecem seus aplausos e, entre as quais, uma foi também agradada com uma indicação ao Braskem – Isadora Werneck concorre ao prêmio de melhor atriz.

Eudemonia merece as indicações conquistadas e, quem sabe, te presenteie com a graça de um dia voltar em cartaz.

Voltar em cartaz não é mais ou menos desafiador do que entrar em cartaz, o que me leva de volta ao início.

Fazer teatro demanda coragem.

Não aquela coragem que precisamos para nos inscrevermos no curso de artes cênicas no vestibular.

Fazer teatro demanda aquela coragem, por fim e eternamente, de continuarmos seguindo contra a correnteza, mantendo as lufadas de oxigênio em mente.

Assim sendo, coloquem suas roupas de banho e segurem a respiração.

Como não há previsão de destino, nos resta aproveitar o mergulho. Afinal, o nosso corpo já é 60% água. 

5 comentários:

  1. Primeiro texto que me fez sentir na pele o que é ser um profissional de teatro. Precisão cirúrgica e lirismo. Que você encontre muito oxigênio pra continuar em frente. bj Inês

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  2. Parabéns, e muitas braçadas mais, lufadas de oxigênio incontaveis, para que o teatro sobreviva.

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  3. So conseguí ler verdade, Sophi. (Inspiração bem profunda... Expiração). Seguindo o mergulho.

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  4. Bela e necessária reflexão,Sophia. Obrigado por dividir conosco essas inquietações que são nossas também. É nadando juntos, mergulhando juntos, respirando juntos que encontraremos às respostas que buscamos.

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  5. Obrigada por dar folego ao meu boiar! Encontro-me assim, boiando sem saber como nadar contra a correnteza, afinal, ninguem nos avisou que teriamos que sobreviver a tantas correntezas! Vida longa Sophi, e a essa nova geraçao de atrizes e diretoras incriveis !

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