Sábado de
manhã eu fiquei presa dentro de um box de vidro, dentro do banheiro na casa do
meu ex-namorado, que vamos chamar de T. A porta do box estava seriamente emperrada
pra fora do trilho, e a porta do banheiro trancada por dentro, de forma que eu
comecei o dia duplamente prisioneira.
Nua, com
medo de abrir o box à força e o vidro explodir em mil pedaços (coisa que tinha
acontecido recentemente com o mesmíssimo box do banheiro dos fundos), eu chamei T. Ele veio em meu socorro e, naturalmente, tentou abrir a porta.
Estava trancada. “Por que você trancou a porta?” perguntou, surpreso.
Boa
pergunta. Por que diabos eu tranquei a porta do banheiro? Não é algo que eu
costume fazer. Logo antes disso acontecer, nós dois tivemos uma discussão boba,
incitada por mim que, além de tudo, tinha um compromisso de trabalho em meia
hora. Eu me chateei, fui tomar banho e... tranquei a porta do banheiro. Bingo!
Foi um gesto de rebeldia.
Mas
rebeldia contra quem? T não tinha feito nada demais, e mesmo que tivesse, do
que adiantaria eu virar uma chave? Pensei na representação simbólica do espaço em que me encontrava. Talvez seja o banheiro o lugar em que nós fiquemos mais vulneráveis.
Definitivamente, nua e presa dentro do box, eu estava me sentindo bem
vulnerável. Bingo! Foi um gesto metafórico.
Eu tranquei
a minha vulnerabilidade comigo no banheiro porque queria que estivéssemos nós
duas ali, a sós, protegidas do mundo, unidas em nosso despir. Vocês estão
acompanhando? Talvez soe confuso, mas juro que faz sentido. Eu sou exatamente o tipo de pessoa
que coloca um muro entre as minhas verdades mais profundas – as minhas
vulnerabilidades – e o resto do mundo. Pior: eu
sou o tipo de pessoa que faz isso ao mesmo tempo que se sente terrivelmente só
e deseja, mais do que tudo, ser acessada, compreendida e estar verdadeiramente
conectada com os outros. Bingo novamente...
Quase posso
ouvir T suspirar e dizer, entre doçura e cansaço: “Você precisa problematizar
menos as coisas.”. É verdade, eu preciso. Mas o universo tem sempre um jeitinho
de nos testar, não é? E eis que estou eu, duplamente prisioneira da minha
própria auto sabotagem. Se ao menos eu não tivesse trancado a porta do
banheiro... T poderia entrar, me dar umas roupas, um óculos de proteção, luvas,
botas e quem sabe um capacete, e eu poderia desemperrar o box de vidro à força
e sem medo.
Mas a minha
única companhia possível era o chuveiro. O chuveiro, cheio d’água como eu, o
xampu e a plena noção de que, se eu pudesse, me trancava triplamente até, pra
depois me indignar pensando: por que ninguém vem até aqui? Por que ninguém
chega, por que ninguém me ajuda? Eu quero ser conhecida, eu quero ser acessada,
eu quero estar conectada.
Alguém
deveria me dizer que, em geral, é bom que a gente cuide de ter uma coerência
entre o que queremos e o que fazemos. Não, T já me disse isso... Aliás, eu
mesma já disse isso pra ele. O que, de qualquer forma, não me impediu de estar tão nua quanto possível (sem roupas e, a essa altura, sem filtros) e prisioneira no cômodo mais suspeito da casa do meu ex. E então?
Então, como
uma criança, eu teria que aprender as consequências dos meus atos. Não tinha
jeito. Agora eu teria que abrir o box à força, deixar o vidro estilhaçar, o
sangue correr e a porta destrancar. Quem sabe a partir daí eu poderia usar a
deixa das certamente visíveis cicatrizes para me abrir mais ao mundo, em
conformidade com o que tanto quero. Eu poderia dizer “Ah, essas cicatrizes? Foi
um dia em que eu tranquei minhas vulnerabilidades à chave e tive que explodir a
porta pra sair. Aliás, você aceita tomar um chá e ouvir sobre quem eu realmente
sou? Adoraria ser acessada e estou finalmente disponível!”.
E logo
quando eu estava fazendo um mapa mental de tudo que iria
desenterrar do fundo de mim, tremendo e arrepiando, a porta abriu. Se foi Deus? Não, foi T. Ele
encontrou uma chave mestra e abriu a porta do banheiro. Não só isso, mas ele
também me deu roupas e desemperrou o box que, no fim das contas, nem explodiu.
Ele também me deu um abraço depois, com quê de desgaste. A gente se estressou
bastante no processo de me libertar.
No fim, eu
não me atrasei tanto pro meu compromisso de trabalho, não fiquei com nenhuma
cicatriz e ainda fui obrigada a admitir o seguinte: não é bom se trancar
duplamente em lugar nenhum, metaforicamente ou não, principalmente se você, na
verdade, deseja estar livre de todas as portas, convivendo em liberdade com todos
os outros seres complexados do mundo. E, mesmo que em algum momento isso te
pareça uma boa ideia, pense duas vezes – é bem capaz que alguém escute seu pedido
de socorro, resolva te ajudar, consiga abrir não só uma, mas as duas portas, e
te prove que essa história de estar profundamente sozinha é balela. Aí só vai
sobrar a vergonha de ter ficado quarenta minutos nua presa dentro de um box que, no
fim, era relativamente inofensivo. Bingo! Mais um medo não justificado.
Dito
tudo isso, à vocês só peço uma coisa: não saiam compartilhando, ok? Eu ainda estou
em fase de negociação com as minhas vulnerabilidades. Tenham paciência. Qualquer
dia a gente convida o mundo todo pra tomar um chá. Na sala! Não no banheiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
nossa
você aqui?