9.3.20

chove lá fora e aqui faz tanto frio me dá vontade de saber

A chuva tá batendo tão forte do lado de fora que parece que quer derrubar o prédio. Não. Parece que vai derrubar o prédio. Agora mesmo Vitória pediu que o namorado desencostasse da parede. Vai que a parede inteira cai. Facilmente, me enxergo de pé diante de um buraco imenso no meu apartamento, encarando os dezessete andares de queda sem parapeito como quem simplesmente olha intrigada pro mar (que por sinal, tá logo ali atrás) em dia de maré braba. Cabelos esvoaçando e tocando meu rosto com firmeza. O cheiro de sal que chegaria de vez e as gotas d’água frescas de arrepiar. Por mim essa parede cai agora. Mas não cai. Ainda assim, o vento uiva com os pulmões de cem lobos. Nada é tão do lado de fora assim, penso, porque aqui dentro acontece a mesma coisa. A minha chuva, quando vem, parece que quer (parece que vai) derrubar a carcaça que eu carrego pra cima e pra baixo todos os dias. Ela é muito mais do que cabe aqui dentro, e demanda espaço. Eu entendo, também sou espaçosa. E se eu pudesse também derrubava um prédio. Será que posso? Derrubava tudo. Derrubava os meus e os seus muros, mas principalmente os seus, porque os meus tão em processo de corrosão desde aquele dia em que eu de fato conversei com a minha chuva. A mesma que tenta derrubar minha carcaça. Se ao menos você não tivesse medo de se molhar, eu te mostrava. Eu te molhava. E nós uivaríamos com os pulmões de mil lobos.


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