20.2.15

Carnavalizar parte +

Foi no passo sujo do samba dela que ele esqueceu da sofreguidão
Soltou seu velho sorriso desdentado e juntou-se
Embarcaram num frenesi suado de paz e de promiscuidade
Tudo na trilha do samba
No cair dos confetes que boiavam na piscina
Com eles, com o reflexo dos céus, com as fantasias fluorescentes 

- Rufem os tambores para o amanhecer da melhor ressaca de suas vidas
Aquele carnaval trouxe o barulho mudo da beleza encontrada.

13.2.15

Na balada, de madrugada

eu vi essa garota na balada
e ela estava dancing

mexia o corpo todo
num doce encantar
de quem não tem mais nada
não tem nada a arriscar

quase pasma no meu canto
fiquei fantasiando
tocar naquele corpo
talvez mesmo dar um beijo

encontro boca a boca
sagrado, cruel desejo
num piscar soltar da roupa
descobrir o teu gracejo

pensei mesmo ser loucura
quando ela me lançou
um olhar amendoado
que tirou a minha dor

sussurrou nos meus ouvidos
vamos dançar
antes que me desse conta
eu também estava lá

e escreveram sobre nós
"eu vi essas garotas na balada
e elas estavam dancing
dancing
dancing até o sol raiar" 


31.12.14

Despeço-me de ti

de repente
novamente
já é fim
despeça-te, sem pesares
definitivamente
de mim

na falta de outro desfecho
que fiquem esses versos malfeitos
e só
é só.

20.12.14

Quem me dera

Quem me dera ser igual você quando eu crescesse
Atrair, de repente, toda essa gama
De moça que quando passa, chama atenção
Sabe que quando você dança, o povo aclama
Compõe uma nova moda, outra canção
Só pra ver mais desse seu rebolado, de olho fechado
Cheio de graça de mulher moça garota menina 
Quem me dera ter essa tua voz rouca
Pra cochichar assim baixinho, no ouvido da rapaziada
Estender o canto até a mais alta madrugada
Encantar o mundo só dando risada
Inventar histórias antigas dos casos cos cabras
Quem me dera se me quisessem bem como quero a ti
E, quando duvidar, lembra: se eu tivesse só um minuto pra correr o mundo
Ainda te traria lembranças quantas quisesse
Na espera do abraço morno e agradecido que me desse
Aquela vontade de ser como costumava
De viver como você inda vive por aí
Perdida e solta na gente sadia
Nascida em mim

10.12.14

O Muro de Berlim não caiu por si

A angústia que me bate à porta veio de outro paralelo
Chacolha o meu e os nossos corpos,
Eriça o medo dos inocentes
Inocentes?

Tenta tirar o que Deus me deu
Me deu a contragosto porque não me aprecia
Nem a ti
Ninguém sai impune do reino da Terra

Fronte uma vastidão de elos perdidos,
Vou me perder também
Já não há o que reste aqui
O furdunço se aquietou pra fugir do açoite

Aquele cinza pálido e traiçoeiro, sabe aquele?
Há tempos deixou de ser convidativo
Cobre majestosa e impiedosamente os tijolos da extensa parede
Que nos barra e separa

Estamos no aguardo da queda,
Enquanto não me apercebo
De que não há indícios que o meu e nossos muros
Jamais cairão

Sem indícios, vai a esperança
Sem esperança, fica o nada
Se for pra viver barrada
Por que insisto aqui?

24.10.14

Quando foi que

Na sua lápide, gravaram Schopenhauer
Se engana quem o julga descansado
Na realidade, ele agoniza no pós-túmulo
Quer tomar o tempo de uma expiração alheia para si
Precisa que alguém lhe conceda esse tempo, pois tem feito falta
Quando foi que perdera os minutos?

Na última tarde parara para observar um motoqueiro se despedir do namorado
Era um rapaz, assim como ele próprio
Como poderia que fosse algo a mais?
Homem soava excessivamente pesado
Existe muito de pesado no mundo

Hoje de manhã caminhava sem saber que
Sem saber se encaminhava, na verdade - e lentamente -, para sua morte prematura
Desfecho certeiro para uma existência também emancipada

Talvez pudesse ter sido um prodígio
Mas não fora
Não sabia. Como saberia? Ninguém sabia
E já era tarde

19.10.14

Absinto

Noite gostosa, Santa Catarina
Que fez rodar e não querer voltar
Um mar que pedia ainda mais silêncio
Pra se fazer ouvido
Pois tinha o som lindo da paz derradeira

Semana boa, Santa Catarina
Que quis tanto que não voltássemos mais
Deixou o prelúdio da saudades do depois do fim
Dos amigos que já foram e estão por ir, que a vida esquece

A despeito daquela mania cigana de partir
Que não canso de levar comigo
Peço que continuem imaculadas as lembranças
E que se juntem aquelas outras
Perdidas no coral extenso e colorido do sobreviver

Talvez um dia eu te conte que te conhecer
Me deu vontade de voltar a viver como eu vivia
Enquanto isso, descansa, Florianópolis
Descansa que a tua semana decanta

18.9.14

Morra na filosofia

Pra que rimar amor e dor? Ao invés de ver o sol se pôr
Vamos parar, meu caro
Enquanto inda é tempo
Mas proteja sua mente da deterioração humana, tão puritana
Não tema ser fraco, porque assim já seria
Morra na filosofia,
Que é meu berço, meu leito, meu mar
Meu discurso final
Nossa maior desgraça, minha melhor delícia.

12.9.14

Pra lá não há

você não me espera, eu sei, eu sei que você não me espera
do outro lado desse turbilhão do florescer
não há ninguém no após, sei que estou sozinha no restart
e que talvez nunca venha alguém

mas por que, se eu quis tanto
e mastiguei as minhas ferrugens, e mudei a cor da minha retina
e engoli o resto com ácido
num gesto rápido
escasso

por que, se eu amei tanto, sem nunca ter aprendido como
e eu morri, e voltei zumbi
pra me dar, de novo, a essa estranheza
tão comum à mocidade
no fim, tá tudo o mesmo e não há ser vivo do outro lado
e eu sei - eu já sabia
e talvez goste
assim.

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