15.6.15

Vida urbana

Um gato de pelagem branca
e uma estranha de cabelos arruivados
Trocaram
no silêncio de uma colina vazia
um longo olhar
de pretensões e entendimentos desconhecidos
Trocaram um longo olhar
extenso demais para ser considerado uma causalidade
E
portanto
considerado uma causalidade. 


Um homem sentou-se numa cafeteria
Pediu um chope
Flertou levemente com alguém ali perto
Sem ser desatento com seus amigos
Pensou sobre o intrigante risco
ao qual todos ali se subjugaram quando saíram de casa num fim de tarde
com conhecida previsão de chuva torrencial
Observou o zoólogico humano instaurado naquele pequeno grande salão
Notou o alvo de seu flerte insinuando olhares para um terceiro
entendeu que fazia todo sentido sair para ficar preso pela chuva
E fez disso seu ritual primordial.

3.5.15

Oração

Na minha fraqueza eu penso que jamais poderia escolher te deixar ir
vou sentar aqui e pedir para o Deus no qual você crê tão piamente te faça feliz
tenho medo de que tudo se torne apenas uma memória
me assusta imaginar uma vida onde o comum seja a tua eterna ausência
quando, a princípio, um único fugaz momento sem tua áurea aqui me parece o fim dos tempos
o que posso fazer?
se você me desse um sinal qualquer de que há algo para garantir que estará bem
talvez até melhor
eu abandonaria minha identidade,
eu mergulharia em magma,
eu seria mais corajosa do que os heróis que ainda não foram escritos
porque eu te amo
 
E quem nos ensinou a amar?
foi você, eu sei
e se você for
eu me lembrarei sempre



2.5.15

Peace

she didn't know what to do with all that happiness
so she would put her green headphones on and walk down the streets
smiling to strangers
buying fruits
and kicking little rocks

she also didn't know what to do sunday afternoon
so she would turn on her computer and start talking shit with her friends
maybe write some letters to her beloveds

she had no ideas for that rainy night of insomnia
so she would watch a bunch of really scary movies just to say that they weren't scary at all

and before going to bed, she would always look up to any airplane that was crossing the heavens
and wonder who would be sitting there

in this messy mix of not knowing, she knew only one thing
she would miss herself 

30.3.15

Águas de março

sua dança é uma bétula crescendo ao lado do meu corpo nu
estirado sob o luar
enquanto olho as estrelas
e penso que elas fazem juz ao número de possibilidades que passam no vazio agridoce das nossas mentes
sua dança é também liberdade
e vapor d'água pra minha garganta ora sedenta, ora com sede
-
caminhou lentamente em direção a lápide
enquanto o moço loiro ajoelhava um pouco a frente
apoiando no queixo um violino
que em tudo legitimava a sua qualidade inexplicável de anjo
-
cigana recém chegada querendo saber o que há de bom
dentro de poucos dias já se fazia em casa
e foi de tanto grado que ali resolveu até mesmo dar um tempo
mas toda vez que passa o circo ela vai viajar
e se faz inda mais viva


20.2.15

Carnavalizar parte +

Foi no passo sujo do samba dela que ele esqueceu da sofreguidão
Soltou seu velho sorriso desdentado e juntou-se
Embarcaram num frenesi suado de paz e de promiscuidade
Tudo na trilha do samba
No cair dos confetes que boiavam na piscina
Com eles, com o reflexo dos céus, com as fantasias fluorescentes 

- Rufem os tambores para o amanhecer da melhor ressaca de suas vidas
Aquele carnaval trouxe o barulho mudo da beleza encontrada.

13.2.15

Na balada, de madrugada

eu vi essa garota na balada
e ela estava dancing

mexia o corpo todo
num doce encantar
de quem não tem mais nada
não tem nada a arriscar

quase pasma no meu canto
fiquei fantasiando
tocar naquele corpo
talvez mesmo dar um beijo

encontro boca a boca
sagrado, cruel desejo
num piscar soltar da roupa
descobrir o teu gracejo

pensei mesmo ser loucura
quando ela me lançou
um olhar amendoado
que tirou a minha dor

sussurrou nos meus ouvidos
vamos dançar
antes que me desse conta
eu também estava lá

e escreveram sobre nós
"eu vi essas garotas na balada
e elas estavam dancing
dancing
dancing até o sol raiar" 


31.12.14

Despeço-me de ti

de repente
novamente
já é fim
despeça-te, sem pesares
definitivamente
de mim

na falta de outro desfecho
que fiquem esses versos malfeitos
e só
é só.

20.12.14

Quem me dera

Quem me dera ser igual você quando eu crescesse
Atrair, de repente, toda essa gama
De moça que quando passa, chama atenção
Sabe que quando você dança, o povo aclama
Compõe uma nova moda, outra canção
Só pra ver mais desse seu rebolado, de olho fechado
Cheio de graça de mulher moça garota menina 
Quem me dera ter essa tua voz rouca
Pra cochichar assim baixinho, no ouvido da rapaziada
Estender o canto até a mais alta madrugada
Encantar o mundo só dando risada
Inventar histórias antigas dos casos cos cabras
Quem me dera se me quisessem bem como quero a ti
E, quando duvidar, lembra: se eu tivesse só um minuto pra correr o mundo
Ainda te traria lembranças quantas quisesse
Na espera do abraço morno e agradecido que me desse
Aquela vontade de ser como costumava
De viver como você inda vive por aí
Perdida e solta na gente sadia
Nascida em mim

10.12.14

O Muro de Berlim não caiu por si

A angústia que me bate à porta veio de outro paralelo
Chacolha o meu e os nossos corpos,
Eriça o medo dos inocentes
Inocentes?

Tenta tirar o que Deus me deu
Me deu a contragosto porque não me aprecia
Nem a ti
Ninguém sai impune do reino da Terra

Fronte uma vastidão de elos perdidos,
Vou me perder também
Já não há o que reste aqui
O furdunço se aquietou pra fugir do açoite

Aquele cinza pálido e traiçoeiro, sabe aquele?
Há tempos deixou de ser convidativo
Cobre majestosa e impiedosamente os tijolos da extensa parede
Que nos barra e separa

Estamos no aguardo da queda,
Enquanto não me apercebo
De que não há indícios que o meu e nossos muros
Jamais cairão

Sem indícios, vai a esperança
Sem esperança, fica o nada
Se for pra viver barrada
Por que insisto aqui?

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