24.10.14

Quando foi que

Na sua lápide, gravaram Schopenhauer
Se engana quem o julga descansado
Na realidade, ele agoniza no pós-túmulo
Quer tomar o tempo de uma expiração alheia para si
Precisa que alguém lhe conceda esse tempo, pois tem feito falta
Quando foi que perdera os minutos?

Na última tarde parara para observar um motoqueiro se despedir do namorado
Era um rapaz, assim como ele próprio
Como poderia que fosse algo a mais?
Homem soava excessivamente pesado
Existe muito de pesado no mundo

Hoje de manhã caminhava sem saber que
Sem saber se encaminhava, na verdade - e lentamente -, para sua morte prematura
Desfecho certeiro para uma existência também emancipada

Talvez pudesse ter sido um prodígio
Mas não fora
Não sabia. Como saberia? Ninguém sabia
E já era tarde

19.10.14

Absinto

Noite gostosa, Santa Catarina
Que fez rodar e não querer voltar
Um mar que pedia ainda mais silêncio
Pra se fazer ouvido
Pois tinha o som lindo da paz derradeira

Semana boa, Santa Catarina
Que quis tanto que não voltássemos mais
Deixou o prelúdio da saudades do depois do fim
Dos amigos que já foram e estão por ir, que a vida esquece

A despeito daquela mania cigana de partir
Que não canso de levar comigo
Peço que continuem imaculadas as lembranças
E que se juntem aquelas outras
Perdidas no coral extenso e colorido do sobreviver

Talvez um dia eu te conte que te conhecer
Me deu vontade de voltar a viver como eu vivia
Enquanto isso, descansa, Florianópolis
Descansa que a tua semana decanta

18.9.14

Morra na filosofia

Pra que rimar amor e dor? Ao invés de ver o sol se pôr
Vamos parar, meu caro
Enquanto inda é tempo
Mas proteja sua mente da deterioração humana, tão puritana
Não tema ser fraco, porque assim já seria
Morra na filosofia,
Que é meu berço, meu leito, meu mar
Meu discurso final
Nossa maior desgraça, minha melhor delícia.

12.9.14

Pra lá não há

você não me espera, eu sei, eu sei que você não me espera
do outro lado desse turbilhão do florescer
não há ninguém no após, sei que estou sozinha no restart
e que talvez nunca venha alguém

mas por que, se eu quis tanto
e mastiguei as minhas ferrugens, e mudei a cor da minha retina
e engoli o resto com ácido
num gesto rápido
escasso

por que, se eu amei tanto, sem nunca ter aprendido como
e eu morri, e voltei zumbi
pra me dar, de novo, a essa estranheza
tão comum à mocidade
no fim, tá tudo o mesmo e não há ser vivo do outro lado
e eu sei - eu já sabia
e talvez goste
assim.

28.8.14

Já tarda


Hoje foi, mas depois
Não vem mais
Não cedo, rapaz
Preciso de paz
Eu não cedo de novo
Tão cedo; jamais.



25.7.14

Monstros

Tudo ao redor pega fogo, incendeia
Toco o meu corpo e desfaço em areia
Eles estão à espreita, com garras e dentes
Vão destruir o que houver pela frente

Reunidos, sádicos, na última ceia
De prato principal aquela triste sereia
Que costumava cantar, num choro que mente
E diz que consegue lidar com o que sente

Mas vê-se que é tarde, e já se semeia
Aquilo que ninguém no mundo nomeia
Ao longe e tão perto, o abismo estridente
Reino da chama, do falso e não quente

11.6.14

Canto de alerta

Sou dotada de loucura sem igual
E, por isso, cheia de receios
Meu tormento é quase musical
Meus fins não justificam os meios

Me esqueça enquanto é tempo
Porque aqui não é o seu lugar
Disseram que sou a pior das mulheres
Por quem você pode se apaixonar

Olhe bem por onde vai entrando
Não se esqueça de se apressar
Pois você vai se ver sangrando
E será incapaz de voltar

Não quero te fazer mal
Mas tenho a forte sensação
De que faço lavagem cerebral
Em quem me entrega o coração

Finalmente, cansei de me preocupar
Dar falsa voz a tantos anseios
Antes que alguém possa nos matar
Mergulhemos em nossos desejos

Se o mundo me fez assim
Quem sou eu pra resistir?
Se a tristeza já não tem fim
Fui feita para existir

16.5.14

de um tempo atrás

to delirando
e você, nesse agora desse momento, talvez fosse o único que eu acolheria ao meu delírio
deslizo minhas mãos sobre meus ombros
não entendo da vida O mundo me deixa tonta
enquanto outras mãos empurram os mesmos ombros
atravesso ruas lotadas de carros e luzes
embriagada, no auge da minha mais insana lucidez
mordo meus lábios até sangrar
de novo, aquelas imagens passam pelos meus olhos fechados
quem me vê de fora, não vê nada
cabelos bagunçados, sensações aguçadas, num frenesi desconhecido e temeroso
o que está acontecendo?
Tão longe do que secretamente busco alcançar Algo que esqueci de dizer a mim mesma
ouço dedos estralando Pescoços girando, meios sorrisos Escuro
quero roubar esse escuro
me jogo contra parede Escorregando devagar e agora arregalo os olhos
sinto falta da arte Meus poros gritam, sem voz, que preciso mergulhar antes que me afogue no ar humano
não sou desse mundo, mas posso me encontrar aqui Naqueles com quem posso dividir a paixão
os Loucos

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