6.12.19

me procure!

me procure quando quiser uma dose extra de honestidade
ou quando precisar de um olhar atento
me procure por um colo, uma palavra calma
quando for olhar o céu
ou passar um café amargo
me procure

só lembre de me deixar antes que as coisas fiquem sérias demais
antes que os nossos olhares se encham d'água
lembre de me deixar antes que as perguntas voltem
ou que o toque eletrize

me procure quando precisar de mim,
mas, pelo amor de deus,
me deixe antes que eu precise de você.

4.12.19

O box de vidro

<aka minha primeira crônica> 

Sábado de manhã eu fiquei presa dentro de um box de vidro, dentro do banheiro na casa do meu ex-namorado, que vamos chamar de T. A porta do box estava seriamente emperrada pra fora do trilho, e a porta do banheiro trancada por dentro, de forma que eu comecei o dia duplamente prisioneira.

Nua, com medo de abrir o box à força e o vidro explodir em mil pedaços (coisa que tinha acontecido recentemente com o mesmíssimo box do banheiro dos fundos), eu chamei T. Ele veio em meu socorro e, naturalmente, tentou abrir a porta. Estava trancada. “Por que você trancou a porta?” perguntou, surpreso. 

Boa pergunta. Por que diabos eu tranquei a porta do banheiro? Não é algo que eu costume fazer. Logo antes disso acontecer, nós dois tivemos uma discussão boba, incitada por mim que, além de tudo, tinha um compromisso de trabalho em meia hora. Eu me chateei, fui tomar banho e... tranquei a porta do banheiro. Bingo! Foi um gesto de rebeldia.

Mas rebeldia contra quem? T não tinha feito nada demais, e mesmo que tivesse, do que adiantaria eu virar uma chave? Pensei na representação simbólica do espaço em que me encontrava. Talvez seja o banheiro o lugar em que nós fiquemos mais vulneráveis. Definitivamente, nua e presa dentro do box, eu estava me sentindo bem vulnerável. Bingo! Foi um gesto metafórico.

Eu tranquei a minha vulnerabilidade comigo no banheiro porque queria que estivéssemos nós duas ali, a sós, protegidas do mundo, unidas em nosso despir. Vocês estão acompanhando? Talvez soe confuso, mas juro que faz sentido. Eu sou exatamente o tipo de pessoa que coloca um muro entre as minhas verdades mais profundas – as minhas vulnerabilidades – e o resto do mundo. Pior: eu sou o tipo de pessoa que faz isso ao mesmo tempo que se sente terrivelmente só e deseja, mais do que  tudo, ser acessada, compreendida e estar verdadeiramente conectada com os outros. Bingo novamente...

Quase posso ouvir T suspirar e dizer, entre doçura e cansaço: “Você precisa problematizar menos as coisas.”. É verdade, eu preciso. Mas o universo tem sempre um jeitinho de nos testar, não é? E eis que estou eu, duplamente prisioneira da minha própria auto sabotagem. Se ao menos eu não tivesse trancado a porta do banheiro... T poderia entrar, me dar umas roupas, um óculos de proteção, luvas, botas e quem sabe um capacete, e eu poderia desemperrar o box de vidro à força e sem medo.

Mas a minha única companhia possível era o chuveiro. O chuveiro, cheio d’água como eu, o xampu e a plena noção de que, se eu pudesse, me trancava triplamente até, pra depois me indignar pensando: por que ninguém vem até aqui? Por que ninguém chega, por que ninguém me ajuda? Eu quero ser conhecida, eu quero ser acessada, eu quero estar conectada.

Alguém deveria me dizer que, em geral, é bom que a gente cuide de ter uma coerência entre o que queremos e o que fazemos. Não, T já me disse isso... Aliás, eu mesma já disse isso pra ele. O que, de qualquer forma, não me impediu de estar tão nua quanto possível (sem roupas e, a essa altura, sem filtros) e prisioneira no cômodo mais suspeito da casa do meu ex. E então? 

Então, como uma criança, eu teria que aprender as consequências dos meus atos. Não tinha jeito. Agora eu teria que abrir o box à força, deixar o vidro estilhaçar, o sangue correr e a porta destrancar. Quem sabe a partir daí eu poderia usar a deixa das certamente visíveis cicatrizes para me abrir mais ao mundo, em conformidade com o que tanto quero. Eu poderia dizer “Ah, essas cicatrizes? Foi um dia em que eu tranquei minhas vulnerabilidades à chave e tive que explodir a porta pra sair. Aliás, você aceita tomar um chá e ouvir sobre quem eu realmente sou? Adoraria ser acessada e estou finalmente disponível!”. 

E logo quando eu estava fazendo um mapa mental de tudo que iria desenterrar do fundo de mim, tremendo e arrepiando, a porta abriu. Se foi Deus? Não, foi T. Ele encontrou uma chave mestra e abriu a porta do banheiro. Não só isso, mas ele também me deu roupas e desemperrou o box que, no fim das contas, nem explodiu. Ele também me deu um abraço depois, com quê de desgaste. A gente se estressou bastante no processo de me libertar.

No fim, eu não me atrasei tanto pro meu compromisso de trabalho, não fiquei com nenhuma cicatriz e ainda fui obrigada a admitir o seguinte: não é bom se trancar duplamente em lugar nenhum, metaforicamente ou não, principalmente se você, na verdade, deseja estar livre de todas as portas, convivendo em liberdade com todos os outros seres complexados do mundo. E, mesmo que em algum momento isso te pareça uma boa ideia, pense duas vezes – é bem capaz que alguém escute seu pedido de socorro, resolva te ajudar, consiga abrir não só uma, mas as duas portas, e te prove que essa história de estar profundamente sozinha é balela. Aí só vai sobrar a vergonha de ter ficado quarenta minutos nua presa dentro de um box que, no fim, era relativamente inofensivo. Bingo! Mais um medo não justificado.  

Dito tudo isso, à vocês só peço uma coisa: não saiam compartilhando, ok? Eu ainda estou em fase de negociação com as minhas vulnerabilidades. Tenham paciência. Qualquer dia a gente convida o mundo todo pra tomar um chá. Na sala! Não no banheiro.

17.11.19

seu corpo quente no meu

você me faz poetisar sem esforço algum
um verso, cinco palavras:

seu corpo quente no meu

e pronto, já disse tanto
tanto e ainda tão pouco
comparado ao que tenho pra dizer
mas um dia eu chego lá
(um dia eu chego perto)

por hoje, vou dormir com a sensação de estar deitada nua no seu abraço
com isso e com um pouco de medo
do amanhecer
sem você.

14.11.19

Onde não há pecado nem perdão

Hoje eu amanheci ouvindo o 'Bicho', do Caetano <e que curioso amanhecer ouvindo algo feito vinte anos antes de eu nascer>
sem justificativa, o Spotify resolveu começar pela última música

"Alguém cantando longe daqui
 Alguém cantando alguma canção"

Fecho os meus olhos e logo enxergo os seus
pupilas dilatadas num misto de presença e receio
- o que aconteceu ali?

Sinto minha respiração tranquila, mas lembro perfeitamente de estar sem fôlego
num banco qualquer, no que poderia ser uma cidade qualquer
por um tempo suspenso não existiu mais ninguém
- o que aconteceu ali?

Percebo meu cabelo bagunçado de sono e quase sinto sua mão de novo
brincando entre as mechas, mexendo no meu piercing
como quem não quer nada
(conseguindo tudo)
- o que aconteceu ali?

- você chamou de vício;
  eu assino embaixo

"A voz de alguém quando vem do coração"

Ontem dei voz ao meu
talvez isso tenha trazido um pouco de equilíbrio pro mundo

Minha parte favorita era quando sua voz falhava
a palavra subia corajosa, mas se perdia com doçura na superfície

Minha voz falhou por tempo demais
parece que foi há tanto, e mesmo assim
quanto de você ainda tem mim?

11.11.19

quanto mais envergonhada, mais doce

o rosa da tua boca tem voz - juro!
eu sei porque escuto
o rosa da sua boca chama
o vermelho (mais e mais enrubescido) da minha
o teu rosa e o meu vermelho dizem,
pra qualquer um que ouça,
que querem experimentar um novo tom.

3.10.19

poesia foi quando ela me olhou e disse

cê já percebeu que sotaque ao contrário é "que tá só"?
eu que não quero estar só por muito tempo
vem juntar seu sotaque no meu 

1.10.19

chateada, o quanto for
ainda visto sua camisa pra dormir
era noite e tocava jazz
quando o seu rosto se moveu - sozinho? - alguns centímetros e ocupou o espaço entre o meu ombro e minha boca
meu corpo eletrizou imediatamente, tomando consciência do seu
eu não te conhecia, mas eis que, de repente, existíamos no mesmo mundo
será que foi o jazz?

23.8.19

como seria possível que amizades incomparáveis em honestidade, extrapoladas em afeto, transcendentais em afinidade e convivendo sob o mesmo teto... permanecessem somente amizades?

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