No dia anterior ela tirara dezenas de fotos com sua velha e gasta câmera. Da multidão, das fantasias, dos rebolados, da embreaguez, das bebidas, das luzes, da ressaca. Todas em P&B.
Após um tempo de análise do material que estava na câmera, a menina soltou um suspiro angustiado. Ingênua, ela pensara que seria bom dar uma olhada nas fotos recém tiradas.
Mas tudo estava saindo ao contrário: o preto e branco das fotos ria dela. Assim como as palavras de seus textos, os traços de seus desenhos, os acordes das suas músicas, o desafinado da sua cantoria, as falas das suas cenas.
Nas últimas semanas, tudo ria dela. Clemence recostou a testa nos joelhos, desolada. O que estava acontecendo? Logo sentiu os olhos quentes de lágrimas. Estava, de novo, pensando no que não devia. Não sabia mais como evitar. Sentia algo pegajoso atolado no peito, que dificultava sua respiração.
Deitou as costas na calçada onde estava e fechou os olhos. Sentia o que antes era uma leve dor de cabeça se tornando progressivamente mais forte, na medida que o trio elétrico daquela tarde fazia os carnavalescos ficarem mais e mais animados. Sentia a pele em contato com o chão sujo, os pelos do corpo eriçados por nenhum motivo aparente. Sentia cheiro de cerveja e de shampoo. Sentia a água lutando contra suas pálpebras fechadas.
Clemence foi assaltada por lembranças. Através do nada, ela enxergou um garoto de cabelos pretos e expressão risonha. Ele perguntou se ela queria ajuda para parar de chorar, ao que ela respondeu positivamente. E ele a beijou, puxando-a para si no exato momento em que ela dava um impulso e sentava em seu colo. Mordeu os lábios.
Clemence dançava, ao som de uma música instrumental acompanhada apenas por vozes que sussurravam. Seus movimentos eram líquidos, seu fôlego instável.
Clemence colocava um pé na frente do outro, enxergando tudo desfocado. Viu um cruzamento. Viu seu corpo ser atropelado uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes no total.
Clemence estava de frente para um espelho sujo e rachado, apoiado numa pia de mármore frio onde também havia uma tesoura. Ela pegou a tesoura, segurou com uma das mãos uma longa mecha de seus cabelos, e a cortou na altura do queixo. Ficou olhando os fios caírem lentamente.
Clemence apertava os ouvidos com força. Mas, na sua cabeça, muitas vozes soavam nitidamente. "Já é o segundo, em. Você é boa nisso" "Demônio, menina burra, cobra" "Parabéns! Parabéns, você é a mais nova prostituta do Bar Vestibulandas".
Então de repente aquele mesmo garoto estava em pé na sua frente. Clemence procurava os olhos dele, mas ele desviava o olhar. Ela ergueu a palma da mão, devagar, e examinou os dedos. Tudo normal. Olhou apreensiva para o garoto. Ele não a via.
Clemence agora batia à porta dum quarto com toda a força. Caiu de joelhos e apoiou as mãos no chão. A raiva lhe rasgava o peito. Ela ergueu a cabeça e gritou mais alto do que jamais gritara. Nenhum som saiu.
Clemence agora batia à porta dum quarto com toda a força. Caiu de joelhos e apoiou as mãos no chão. A raiva lhe rasgava o peito. Ela ergueu a cabeça e gritou mais alto do que jamais gritara. Nenhum som saiu.
Clemence estava numa fila não muito longa, esperando para ter os órgãos arrancados. Chegou sua vez. Olhou com curiosidade para a caixa cheia de pulmões e intestinos. Observou o cérebro ser puxado da cabeça, e o coração ser tirado do peito. Mas havia algo errado. Ela olhou para a moça que segurava seus órgãos. Eles estavam pretos.
Clemence escutou, atrás da porta, uma conversa entre o Delírio e a Morte. Ela não tinha medo da Morte. Porque, para ela, a morte significava nada. O absoluto nada. Delírio a agradava. Era muito mais assustador, e tinha uma voz baixa e tentadora. Delírio gostava de Clemence, ele a entendia. Já a Morte teria que aceitá-la de um jeito ou de outro.
Blocos de carnaval se aproximavam. Clemence finalmente se levantou, tonta, e começou a caminhar devagar. Para todo o lado, lembranças. Ela sabia que devia ir para casa de alguém. Se esforçou para pensar em alguém que a acolhesse, e o esforço fez sua cabeça começar a latejar. O céu quase escuro parecia estar cada vez mais baixo, enquanto o chão subia mais e mais. Ela estava sufocando. Por que não sufocar de verdade?
Clemence se suicidou, atônita, naquela mesma noite de verão.
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