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3.3.14

O Delírio e a Morte

Era carnaval, mas Clemence se sentia só. 


No dia anterior ela tirara dezenas de fotos com sua velha e gasta câmera. Da multidão, das fantasias, dos rebolados, da embreaguez, das bebidas, das luzes, da ressaca. Todas em P&B. 

Após um tempo de análise  do material que estava na câmera, a menina soltou um suspiro angustiado. Ingênua, ela pensara que seria bom dar uma olhada nas fotos recém tiradas.  

Mas tudo estava saindo ao contrário: o preto e branco das fotos ria dela. Assim como as palavras de seus textos, os traços de seus desenhos, os acordes das suas músicas, o desafinado da sua cantoria, as falas das suas cenas. 

Nas últimas semanas, tudo ria dela. Clemence recostou a testa nos joelhos, desolada. O que estava acontecendo? Logo sentiu os olhos quentes de lágrimas. Estava, de novo, pensando no que não devia. Não sabia mais como evitar. Sentia algo pegajoso atolado no peito, que dificultava sua respiração. 

Deitou as costas na calçada onde estava e fechou os olhos. Sentia o que antes era uma leve dor de cabeça se tornando progressivamente mais forte, na medida que o trio elétrico daquela tarde fazia os carnavalescos ficarem mais e mais animados. Sentia a pele em contato com o chão sujo, os pelos do corpo eriçados por nenhum motivo aparente. Sentia cheiro de cerveja e de shampoo. Sentia a água lutando contra suas pálpebras fechadas.

Clemence foi assaltada por lembranças. Através do nada, ela enxergou um garoto de cabelos pretos e expressão risonha. Ele perguntou se ela queria ajuda para parar de chorar, ao que ela respondeu positivamente. E ele a beijou, puxando-a para si no exato momento em que ela dava um impulso e sentava em seu colo. Mordeu os lábios. 
Clemence dançava, ao som de uma música instrumental acompanhada apenas por vozes que sussurravam. Seus movimentos eram líquidos, seu fôlego instável. 
Clemence colocava um pé na frente do outro, enxergando tudo desfocado. Viu um cruzamento. Viu seu corpo ser atropelado uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes no total.  
Clemence estava de frente para um espelho sujo e rachado, apoiado numa pia de mármore frio onde também havia uma tesoura. Ela pegou a tesoura, segurou com uma das mãos uma longa mecha de seus cabelos, e a cortou na altura do queixo. Ficou olhando os fios caírem lentamente. 
Clemence apertava os ouvidos com força. Mas, na sua cabeça, muitas vozes soavam nitidamente. "Já é o segundo, em. Você é boa nisso" "Demônio, menina burra, cobra" "Parabéns! Parabéns, você é a mais nova prostituta do Bar Vestibulandas". 
Então de repente aquele mesmo garoto estava em pé na sua frente. Clemence procurava os olhos dele, mas ele desviava o olhar. Ela ergueu a palma da mão, devagar, e examinou os dedos. Tudo normal. Olhou apreensiva para o garoto. Ele não a via. 
Clemence agora batia à porta dum quarto com toda a força. Caiu de joelhos e apoiou as mãos no chão. A raiva lhe rasgava o peito. Ela ergueu a cabeça e gritou mais alto do que jamais gritara. Nenhum som saiu. 
Clemence estava numa fila não muito longa, esperando para ter os órgãos arrancados. Chegou sua vez. Olhou com curiosidade para a caixa cheia de pulmões e intestinos. Observou o cérebro ser puxado da cabeça, e o coração ser tirado do peito. Mas havia algo errado. Ela olhou para a moça que segurava seus órgãos. Eles estavam pretos.
Clemence escutou, atrás da porta, uma conversa entre o Delírio e a Morte. Ela não tinha medo da Morte. Porque, para ela, a morte significava nada. O absoluto nada. Delírio a agradava. Era muito mais assustador, e tinha uma voz baixa e tentadora. Delírio gostava de Clemence, ele a entendia. Já a Morte teria que aceitá-la de um jeito ou de outro. 

Blocos de carnaval se aproximavam. Clemence finalmente se levantou, tonta, e começou a caminhar devagar. Para todo o lado, lembranças. Ela sabia que devia ir para casa de alguém. Se esforçou para pensar em alguém que a acolhesse, e o esforço fez sua cabeça começar a latejar. O céu quase escuro parecia estar cada vez mais baixo, enquanto o chão subia mais e mais. Ela estava sufocando. Por que não sufocar de verdade?

Clemence se suicidou, atônita, naquela mesma noite de verão. 



19.7.11

O fim

O calor das chamas cada vez mais próximas me envolvia por completo. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto tomado de pânico, enquanto meus olhos procuravam desesperadamente uma brecha para as árvores. A cena mudou. Eu me debatia no colo do homem que me continha, gritando por Yawara. Ouvi ao longe um latido fraco, seguido de um grito profundo, desesperado, e cheio de dor.

Acordei assustada, pingando suor. Me sentei na cama e olhei para os lados. Silêncio. Eu mesma que havia gritado. Respirei fundo, tentando recuperar o fôlego. Era impossível não lembrar agora, e a tragédia daquele dia se passou como um filme nos minutos seguintes.

Nasci numa pequena aldeia cercada por uma vasta floresta. Minha mãe morreu no parto, e foi meu pai quem me criou. Nós tínhamos um cachorro, Yawara. Ele ainda era um filhote quando eu nasci, e cresceu comigo. Era grande e peludo, e embora eu não soubesse sua raça, me lembrava um labrador. Quando meu pai morreu, alguns dias depois do meu aniversário de nove anos, Yawara passou a ser a coisa mais importante da minha vida. Algumas pessoas da aldeia entendiam meu isolamento, e ficavam com dó. Outras, indiferentes, simplesmente não se importavam. Eu não fazia idéia de que algo mais marcante do que a morte do meu pai estava para acontecer. Não me entenda mal, eu sofri com a perda do meu pai. Ele que me criara e eu o amava muito. Mas depois disso, acabei criando uma relação de absurda dependência com a única coisa que me restava.
            
Naquele dia, eu estava dormindo numa rede com Yawara ao meu lado, e dormia tão profundamente que, a princípio, a correria e os gritos a minha volta não me acordaram. Somente quando Yawara começou a latir e me lamber que despertei. Apenas uma olhada em volta foi suficiente para eu perceber que tinha alguma coisa muito errada. Não havia mais gritos, e a aldeia não estava mais cheia de gente. Pelo contrário, estava vazia, com objetos caídos aqui e ali, terra pisoteada, e cercada de altas chamas de fogo.

Yawara agora corria desesperado e latindo por todo lado. O calor das chamas cada vez mais próximas me envolvia por completo. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto tomado de pânico, enquanto meus olhos procuravam desesperadamente uma brecha para as árvores. Inutilmente, entretanto. Até onde eu podia ver, o fogo tomava conta de tudo, se aproximando rapidamente. Já estava quase sentando para esperar a morte, quando um homem surgiu ao meu lado, preso por cintos, e com uma corda nas costas.

Olhei para cima, apertando os olhos por causa da fumaça, e pude distinguir a sombra de um helicóptero no alto. O homem correu até mim e começou a me prender com cintos também. Antes que eu pudesse impedir, porém, Yawara saiu correndo e sumiu dentro da minha cabana. Eu agora me debatia no colo do homem que me continha berrando por Yawara. Apesar dos meus esforços, ele não me largou, e eu senti que estava sendo erguida pela corda as minhas costas no exato momento que Yawara saia da cabana, correndo, com a única lembrança que eu tinha da minha mãe segura na boca. Uma pulseira. Eu berrava e me debatia mais do que nunca enquanto Yawara corria para onde eu estava, agora a pouco mais de um metro do chão, mas os cintos eram mais fortes. Continuei lutando por alguns segundos, mas quando olhei pra baixo de novo, não tinha mais Yawara. Só fogo. A aldeia estava tomada de chamas, e eu já me encontrava a cinco metros do chão, subindo cada vez mais. Lágrimas quentes rolaram pelo meu rosto quando escutei o que podia ser um latido fraco, e eu não tinha mais forças para gritar. Meu corpo amoleceu e uma dor que eu nunca havia experimentado antes, e que nada tinha a ver com as tiras e cintos que me puxavam e apertavam, quase cortando minha pele, tomou conta de mim. Senti mãos me puxando para dentro do helicóptero antes de ceder à pressão das minhas pálpebras e deixar a escuridão e o calor invadirem cada pedaço de mim.

Me lembro quando acordei em algum hospital, em alguma cidade qualquer. Explicaram-me que, sem saber da  existência da minha aldeia, os homens haviam posto fogo na floresta que a envolvia. Experimentei a indiferença completa pela primeira vez. Também disseram que eu iria para um orfanato, e lá ficaria até atingir a maioridade, caso não fosse adotada. A sensação foi a mesma. Não sabia quem mais sobrevivera e tampouco me importava.

Só conseguia pensar que Yawara estava morto. Morrera, eu repetia para mim mesma, tentando entender. Morrera por perder sua chance de fugir, como todos os outros, e ficar me lambendo até eu acordar. Morrera porque foi correndo buscar a pulseira da minha mãe para mim, ao invés de ficar. Morrera pela ignorância dos homens, capazes de colocar fogo numa floresta imensa, onde antes viviam pessoas. Morrera, acabara. Nunca mais eu iria dormir ao seu lado, correr com ele, ou abraçá-lo. Nunca mais tomaria banho no lago com ele, nem colheria frutos na floresta protegida pelos seus sentidos aguçados, caso algum bicho se aproximasse. Acabara, morrera, e eu queria morrer também.

Me senti assim por semanas, indiferente a todo o resto. A vida no orfanato era monótona, e acabei repelindo qualquer tentativa de aproximação dos demais.  Ao contrário do que as pessoas me diziam, o tempo não cura tudo, e pouco mais de um ano depois, sentada na minha cama, eu me sentia exatamente igual. Não havia um só dia em que eu não havia pensado no que acontecera, e muitos poucos em que eu não acordara no meio da noite, após sonhos vívidos e impiedosos.

Recostei a cabeça novamente nos travesseiros e fechei os olhos. Sabia que daqui um mês, ou dez anos, estaria do mesmo jeito. Queria morrer também, e me juntar aos outros. Queria estar com mamãe, e papai. E, acima de tudo, queria Yawara. Queria Yawara comigo, para sempre.

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