20.5.17

aceitação

como pode tudo que é incrível passar tão rápido e se diluir em lembrança em questão de segundos
e a lembrança entra na fila do esquecimento no dia seguinte
e o esquecimento devora tudo que passou por mim

tudo passa tão rápido e se dilui em lembrança em questão de segundos e entra na fila e é devorado pelo esquecimento

menos o que nasceu comigo, o que vem de dentro, quiçá de outras vidas

o problema é que o que nasceu comigo não foram os pés de primavera que minha mãe se encanta em olhar
o que vem de mim não é a música suave que nos arrepia um sorriso

não

se alguém me cortar ao meio, me vazar as tripas
se esse alguém, passado a brutalidade, com gentileza olhar para o meu corpo estendido ao avesso
se sem medo me tocarem pela primeira vez
vão encontrar dor

essa dor
essa dor que eu já não ouso evocar
hoje ela vem sem querer
ela transborda, após muito tempo contida
como se para continuar viva, agarrada a mim, precisasse de uma lufada de oxigênio

não há constrangimentos nem hesitações em chegar sem ser convidada
eu me adapto como posso
empurro pra fora, pra dentro, pro mundo, pro papel, pra cama

penso estar livre, nova ou limpa
mas é impossível
é impossível porque nosso instinto selvagem nos protege, e portanto eu me saboto
pois não saberia ficar só
não sobreviveria a essa solidão boçal a que nos sujeitamos quando chegamos nesse mundo

e essa é minha real e única companhia
de sempre
para sempre

foi assim que entendi o conceito de eternidade.


3.4.17

Eu vejo porque é visível

Eu te vejo levantando de manhã porque precisa
atendendo telefonemas chatos

Eu te vejo esgotada
buscando com o olhar impaciente um canto que não existe
onde possa ter paz

Eu te vejo querendo ir embora
divagando por acaso sobre a morte
o descanso
cuidando para que fique tudo bem

Eu te vejo destratando quem te ama
sem ao menos saber
talvez porque esse amor te prenda ao mundo


Mas quando a lua tá bonita
ou um pé de primavera surge, atrevido, no seu caminho
você sorri
e é tão sincero, tão bonito
que por um instante eu tenho certeza que você é feliz

Eu te faria uma escada de flores até o luar
se eu pudesse



19.2.17

City of Man

City of Man
Are you pressing only me?

City of Man
It hurts so much that I cant breath

Its hard...
I knew it from the first night out when I lokeed around
That I had grown and would have to face the truth

City of Man
Just one thing every woman wants

Off on the streets
On parties, travells, or that place we chose as home

Its peace...
Yes, all we are looking for is respect from everyone else

To get
To live
Without
The fear

To look in all of them eyes to know that its fine
That they will not rape or get us all killed
A voice that says yes I'm here and I can hear you shout

We dont care if you say
That we have to stay
Locked up in some room to keep ourselves safe

Cause the ra-ta-tat in my heart...
Tell me I have to know the world

City of Man
Are you scaring only me?

City of Man
Along my sisters I'll be.

Devora-me ou decifro-te

devora-me!

olha-me como se eu fosse uma cor que não existe e que você viu num sonho
toca-me como à chama que não te queima o dedo
prova-me como ao sabor da sua vida passada

devora-me
devora-me como se eu fosse a última refeição da sua vida!

lamba-me como ao sal antes da tequila
percorra-me como à longínqua estrada que te levará ao paraíso
engula-me como ao remédio que curará todas as suas doenças

devora-me
devora-me como se eu fosse o universo que nunca coube em você!

agarra-me como à estrela que você sempre tentou alcançar
mata-me como aos fantasmas que você nunca conseguiu materializar

devora-me
devora-me como se eu fosse a vítima da esfinge
devora-me ou decifro-te.

1.1.17

2017

Fizemos um acordo,
e nossa vida acabou de começar

Meus pulmões ainda doem por conta da primeira lufada de ar
mas você já está cantando o novo hit do ano

Um anjo desliza à nossa frente e anuncia:
a partir de agora, nós temos dois mil e dezessete anos para viver
mas não era todo esse tempo que a gente queria
e então?

Numa arriscada busca por motivos,
você pergunta ao anjo se ela gosta daqui
ela gagueja
ela responde:

"Eu terminei todos os meus dois mil e dezesseis anos
e não sei
acho que agora que acabou
eu vou gostar bem mais."

Você se vira pra mim e diz que ainda há tempo
de voltar atrás
mas eu já estou vestindo as roupas do verão.


start

Te desamei por uma hora inteira

Escuta,
noite passada, por uma hora inteira
eu deixei de te amar
completamente, sinceramente

não é mentira, não
bateu até vontade de chorar

por longos sessenta minutos
eu mal pude te olhar.



11.12.16

ainda nem é madrugada

Eu não to me escondendo de ninguém
Mas ninguém me vê

Se eu ergo meu olhar cheio de lágrimas
Recebo de volta um par de olhos assustados, pego no flagra de quem estava virando o rosto sutilmente pra não ter que perguntar
"o que foi?"

Vai ver ninguém me vê porque não tem ninguém aqui

Essas risadas que eu escuto provavelmente são de fantasmas
Eles silenciaram as correntes em meu respeito
pra não me assustar

Pra quem eu tenho que me provar corajosa pra que eles se façam ouvir?
Aí vou saber se tá tudo vazio mesmo
É foda quando a noite pesa em mim
porque nunca tem um colo pra encostar

Eu odeio querer um colo pra encostar

Agora eu sei
no fundo eles silenciaram as correntes porque o barulho é aterrorizador
torna o ferro real
Assim como o som das risadas
torna minha invisibilidade real

De que adianta ser invisível se todo mundo ainda vê teu corpo?

Eu quero aprender todas as línguas do mundo pra ver se em alguma encontro as palavras que preciso dizer

Sabe quando a gente tem a impressão de que o mundo só existe até onde a gente vê? Tudo a nossa volta está lá apenas para nos fazer acreditar que a realidade não é mentira. Meio Matrix.

É como se eu fosse uma das figurantes que estão ali pra tornar a realidade mais crível, mas por algum acaso infortúnio, deu erro: eu continuei existindo no vazio da realidade - que não é real -, e agora não tenho rumo nenhum.

O que esperamos? Essa vaga expectativa não confessada de que apareça alguém do impossível chão e enxergue toda a subjetividade; que nos toque de verdade, na nossa verdade, e que se deixe tocar. É menos provável isso acontecer do que a vida de repente ser a HQ do Scott Pilgrim.

E ainda assim, como abdicaria da vida alguém que vê arco-íris nas bolhas da espuma do café? O café que toma só.

Eu vou aprender todas as línguas do mundo pra ver se em alguma encontro as palavras que preciso
dizer pra melhor convencer o eco de que eu preciso
dizer algo que não volte.

10.12.16

anestesia

O gosto racional da solidão me seca a boca. 
Ninguém tem ninguém, nunca vai ter, e isso não me toca. Resta uma revirada de olhos. 

Qual seria a outra resposta lógica? 

O mundo é um grande-nada-fracamente-preenchido-pela-esquizofrenia-coletiva. 

Nesse meio tempo, os olhos azuis da sócio-cultura censuram o meu - e o nosso - comportamento auto-destrutivo. 

Será que alguém realmente se importa com o que quer que seja? 

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