18.8.13

Ampulheta

Você me aperta contra seu peito e eu sinto o vazio um pouco menor
Me pergunto algumas daquelas mil perguntas
Tenho medo de abrir meus olhos, quero continuar quieta nos teus braços
A verdade é que eu não quero enfrentar o mundo lá fora
Só não agora

Estou sentindo aquela velha melancolia, e hoje não há quem minta que vai passar

As pessoas me diziam que não se pode desistir da vida, porque ela sempre vale a pena
Que o tempo cura todas as feridas
Mas o incômodo que eu sinto no fundo do peito diz o contrário

Minha maquiagem borrada, meus olhos que eu queria verdes
Tudo o que eu precisava era continuar encolhida
Me entorpecer nessa anestesia efêmera


Estou te esperando
Estou esperando você chegar e me puxar pela mão
Seguir seus passos escuros por um mundo com ar novo
Talvez não seja digna dos meus sonhos
Mas quero olhar no fundo do olhar de alguém e entender por que estamos aqui



7.8.13

Num escuro qualquer

Escuto sua respiração perto de mim
Você anda tão calmo...
Mas meu sangue está fervendo! 

No escuro eu observo, fissurada, seus olhos caramelo
No mesmo escuro, eu toco seus lábios chocolate:
Quero novos sabores seus.

Mas se estamos a dois centímetros um do outro, 
Por que sinto como se fossem metros infinitos?
E por favor, não me toque com esses dedos frios,
Meu corpo está escorrendo calor.

Penso sozinha:
Socorro, socorro. Socorro.
E, por fim, sussurro -
Qual a porra do sentido da vida?

1.8.13

Semana passada

Flashes de cor e som me invadem a consciência
E a cada piscar de olhos
Te vejo rindo e falando...
Vejo vocês.

No escuro, antes de adormecer,
Enxergo uma vez mais aqueles momentos
Mas, longe de mim,
Eles vão se perdendo.

Tão poderoso é o esquecimento
E no medo de não lembrar,
Luto contra o tempo. Contra a rotina que agora me oprime.

E, por fim, enquanto o sangue quente correr,
Viajar e provar do mundo, menino
É sempre o que eu vou querer.

14.7.13

Dama da noite

De pétalas brancas eu te cobri,
dama da noite
Pétalas quase tão brancas quanto você

Nos seus lábios vermelhos eu me perdi,
dama da noite
Antes de perder você

No verde dos seus olhos eu mergulhei
E na mais amarga escuridão você me deixou

Dama da noite,
Sua imagem se desfez em pó

Mas enquanto escuto o rock pesado,
Trilha sonora dos nossos desejos,
Quase sinto o calor da sua pele na minha de novo

Agora, minha dama, quero morrer
Morrer de overdose do cheiro de flor
Que você deixou nas minhas roupas.

25.5.13

Reflexo de uma memória

Ontem a noite estava tão fria, ontem o mundo ficou tão quieto
Por que será que eu sempre
Te quis tanto?

Exalando esse seu hálito agridoce
Te vi dar dez passos em frente
E ninguém mais parou de sofrer.

Respirações ofegantes ansiavam,
Te vi dar dez passos de volta
Desisti de morrer.

Mas você acabou indo pra tão longe
Acabou indo porque não pertence
(ainda bem) À lugar nenhum.

O ar gelado e parado que ficou
Me açoitou os desejos.

Um último pedido:
Me diz
Quem é você?

28.2.13

Fevereiro de paixão

"Eu não sou romântica" ela pensava. Mas enquanto ele se aproximava naquela chuvinha fina, no fim de uma tarde monótona de terça-feira, não havia como deixar de pensar o quanto aquilo parecia um filme. Assim que ele chegou, ela perfurou-o com um olhar inteligente.
- É verdade?
- É. Já faz bastante tempo que é.
Ele olhou em volta pra rua vazia, sem demonstrar nervosismo. A chuva já estava ficando mais forte, e os carros passavam espirrando água nas calçadas.
- E por que só agora?
- Por medo. Você sabe, acontece com os melhores.
Ela sentia vontade de chorar. Era tarde demais.
- Medo... Você já sabe que não dá mais tempo. E agora?
Ele também parecia triste, mas ainda tinha uma certa esperança lá no fundo.
- Agora você me diz o que sente. Nunca é tarde demais.
Ela soltou um muxoxo.
- Nunca é tarde demais pra mudar de ideia. Mas eu não quero mudar de ideia. O que eu sinto?
Ela entrelaçou suas mãos com as dele e se aproximou devagar. A chuva já caia em gostas pesadas quando eles se beijaram intensa e longamente. Ele sorriu, mas era um sorriso triste. Por que ela tinha que ser tão dura?
- O que eu sinto agora não chega perto do que eu sentia antes. E eu não quero voltar atrás. Sem drama, ok? Quem sabe numa outra vez.
Um aceno, e aqueles minutos viraram mais uma história.

31.1.13

Gotas

Deitada nessa chuva pensando em você
A água insiste e quase toca aquilo que deve permanecer isolado.
Mas eu imagino e o mundo gira,
na palma da minha mão e o mundo gira.
Os olhos voltam pro lugar e vejo duas pupilas dilatadas.
Quem é você?

Palavras mudas te vazam pelo olhar - meu coração dispara.
Girando o mundo, na palma da minha mão,
e o mundo segue girando.
Ninguém para pra olhar.
Num fluxo contínuo, as pessoas refletem a transparência do universo.
Ninguém para pra olhar.
Mas eu estou ali! Sentindo tanto. Sentindo muito.
Me jogo no chão -
vergonhas nuas e gritantes escapam contra a vontade,
e eu penso: quero ver as suas.

A chuva ainda não parou e gotas solitárias escorrem pelo meu cabelo.
Gotas de paixão fervente, solidão angustiada,
belezas sinceras e amor desconhecido. Gotas de chuva fria.
Gotas de mim.
Mas e você, quem é?

1.12.12

Por que me render ao mundo?

Quando ainda tenho tanto para dar.
Não toco os padrões -
enxergo-os.
Posso me render ao mundo,
entrar no frenesi humano,
Os batimentos instáveis, intensos e entorpecidos.
Todas as maravilhas,
entre o nojo profundo e desesperado.
E se me render ao mundo,
à paredes tão concretas,
na pressão infinita,
entre sonhos volúveis,
cheios de dúvidas do mais íntimo,
no tráfego de mentes - sem paradas ou freios, até a morte.

Ainda seria eu?

27.9.12

Fogo que arde e se vê.

     O vento uivava na janela, a luz oscilava, a goteira produzia ruídos alternados e incômodos, enquanto a chaleira apitava no fogão. Toda a instabilidade da cena era embalsada por chamas raras. Um fogo ardente, terrivelmente poderoso, que urrava como o vento e se espalhava com a força dos mares, começou a percorrer cada veia dela.
     E aquele fogo tomava conta de cada poro de seu corpo, e suas vontades já não eram suas, nem sua mente equilibrada como de costume. O outro também exalava chamas, e, de coração acelerado e pensamentos confusos, tentava avaliar a situação, mas já não possuía a sensatez habitual.
     Talvez fosse instinto, talvez tudo. Alguns gritariam: "É o amor, com a força do universo pronta para derrubar qualquer barreira e sacudir as molduras do infinito. É amor!". Mas o que realmente se apossava de seus corpos era impossível de se imaginar, retratar, ou sequer de se pensar! O que reinava de fato era apenas a sensação, falsa e momentânea, porém eterna e muito mais que apenas real.
      E então, à beira da loucura, o calor subiu aos olhos, e ambos se encontraram. Era vivo. Era vivo e era visível!  Como a intensidade de tudo, do comum ao completo desconhecido, estivesse ali, por trás de seus olhos, presa, estática, duradoura, arrebatadora, e inacreditavelmente visível. Eram chamas descontroladas em sua repressão. 
      Conceitos, regras, metáforas ou lindos versos, crenças e opiniões, pensamentos profundos e análises complexas, ou a simplicidade leve e bela, nada, nada mais se fazia necessário ou presente. Bastava um olhar. Um olhar apurado, aberto e preparado. Não só preparado, mas completamente pronto para ter coragem de admitir aquilo que escapa aos limites mentais e corpóreos de um ser humano, guiado pelos valores e pelas experiências de toda uma vida. Um olhar, e tudo se fazia resto. Porque era visível.
         Era visível, e era imenso.

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