3.1.12

Um feliz ano novo e uma coisa para compartilhar.

"Titubeio perigosamente
Trafego numa embriaguez dormente
Desfilando sem holofotes
Expondo náuseas de sigilos perdidos
Incorporo e absorvo as dores que vibram
No entorno passante e nos desconhecidos
No meu âmago doentio e de feridas abertas
Ah...
Já percorri esse caminho
Conheço as cores do seu chão...
Observo, silenciosamente,
O rumo a ser tomado dessa vez
O tempo passado
Faz com que o abismo seja mais profundo
E o mergulho é mais escuro
O caos é mais impregnante e devassador
A volta, inacessível
O tempo passado
Faz com que a escalada seja mais alta
E a contemplação mais prazerosa
O ensolarado é mais revelador e espetacular
O topo, permanente
Observo silenciosamente (e em segredo)
Apenas contemplo."

Por: Sandra Colleti - mais conhecida aos leitores como minha mãe.


23.7.11

Viver é um direito, não uma obrigação.

Foi esta a frase que me fez refletir depois de ver “Mar adentro” noite passada. Concordo completamente com ela, por sinal, e apoio a eutanásia (tema da história) quando bem pensada. 

O filme, baseado numa história real, me chamou atenção por três coisas:
1º Todos os atores e atrizes eram absolutamente perfeitos. Literalmente todos ótimos, com destaque para os principais. E, cá entre nós, isso é bem difícil de acontecer.
2º O filme em si. Quando eu digo isso, quero dizer o tema do filme, a abordagem, e acima de tudo, o jeito como ficou claro o perfil de cada personagem.

3º O fato de uma parte do filme não ficar explícita. Não quero dar spoiler caso alguém resolva assistir, então fica difícil explicar. Mas no final você pode ter opiniões diferentes sobre o que pode ter acontecido em uma parte específica, o que eu acho super interessante. Vou parar por aí, pra não confundir ninguém.

Além disso, me fez perceber que é possível fazer uma afirmação sobre amar que pode ser aplicada a todos os casos: amar é querer a felicidade (ou o bem, chame como quiser) do outro. Não digo que amor se resume a isso. E também é claro que não devemos desgraçar certas coisas se disso depender a felicidade da pessoa amada. Nem para esquecermos o próprio bem pelo outro, o que é o erro de muita gente.

Mas a questão é que quem ama de verdade não é egoísta. Vou usar o exemplo do filme, para simplificar. A história é sobre um cara que é tetraplégico há vinte e seis anos e quer morrer. Não é nada dramático, ele está em perfeito estado com suas faculdades mentais, e tem um ótimo bom senso. Não encara a morte com esse medo típico de praticamente todo mundo, e a decisão não é nada precipitada. Ele simplesmente considera a vida desse modo indigna, e quer deixar de viver. O problema é exatamente sua condição física: não tem como cometer suicídio quando você é tetraplégico. Quer dizer, você depende totalmente das outras pessoas. E aí que entra o dilema: as pessoas que o amam deveriam ajudá-lo a morrer? Bom, o final da história só vendo mesmo. Mas o ponto é que se você realmente ama a pessoa, ajudaria ela a ser feliz, mesmo que isso te fizesse sofrer, ou fosse contra os seus princípios? É fácil falar que sim quando não é com a gente.

Eu, por exemplo. Se fosse a minha mãe a tetraplégica que quer deixar de viver, cortaria meu coração, mas eu respeitaria a decisão dela. Respeitar não significa que eu teria a coragem para ajudar. Acontece que é egoísmo demais não querer que o outro morra (ainda com o exemplo do filme) apenas para você não sofrer com a perda, e, em troca, a pessoa amada ser obrigada a viver, quando isso é exatamente o que a faz tão mal. Para mim, o amor profundo e verdadeiro não deixaria isso acontecer. Complicado, né?

De qualquer forma, achei que merecia um post porque me fez pensar bastante, e, como esse blog não tem regra mesmo, sem problemas. Pra quem se interessou, o filme chama (como dito anteriormente) “Mar adentro”, de Alejandro Amenábar, vencedor do oscar (2005) e globo de ouro por melhor filme estrangeiro, indicado ao oscar por melhor maquiagem, indicado ao globo de ouro e vencedor do festival de Veneza por melhor ator. Espanhol. Com Javier Bardem, Belén Rueda e Lola Dueñas. Fiquem com o link do trailer, e até a próxima!

http://www.youtube.com/watch?v=PxXb_YZ-CQI&playnext=1&list=PL95E4A400D0FF5462
       

19.7.11

O fim

O calor das chamas cada vez mais próximas me envolvia por completo. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto tomado de pânico, enquanto meus olhos procuravam desesperadamente uma brecha para as árvores. A cena mudou. Eu me debatia no colo do homem que me continha, gritando por Yawara. Ouvi ao longe um latido fraco, seguido de um grito profundo, desesperado, e cheio de dor.

Acordei assustada, pingando suor. Me sentei na cama e olhei para os lados. Silêncio. Eu mesma que havia gritado. Respirei fundo, tentando recuperar o fôlego. Era impossível não lembrar agora, e a tragédia daquele dia se passou como um filme nos minutos seguintes.

Nasci numa pequena aldeia cercada por uma vasta floresta. Minha mãe morreu no parto, e foi meu pai quem me criou. Nós tínhamos um cachorro, Yawara. Ele ainda era um filhote quando eu nasci, e cresceu comigo. Era grande e peludo, e embora eu não soubesse sua raça, me lembrava um labrador. Quando meu pai morreu, alguns dias depois do meu aniversário de nove anos, Yawara passou a ser a coisa mais importante da minha vida. Algumas pessoas da aldeia entendiam meu isolamento, e ficavam com dó. Outras, indiferentes, simplesmente não se importavam. Eu não fazia idéia de que algo mais marcante do que a morte do meu pai estava para acontecer. Não me entenda mal, eu sofri com a perda do meu pai. Ele que me criara e eu o amava muito. Mas depois disso, acabei criando uma relação de absurda dependência com a única coisa que me restava.
            
Naquele dia, eu estava dormindo numa rede com Yawara ao meu lado, e dormia tão profundamente que, a princípio, a correria e os gritos a minha volta não me acordaram. Somente quando Yawara começou a latir e me lamber que despertei. Apenas uma olhada em volta foi suficiente para eu perceber que tinha alguma coisa muito errada. Não havia mais gritos, e a aldeia não estava mais cheia de gente. Pelo contrário, estava vazia, com objetos caídos aqui e ali, terra pisoteada, e cercada de altas chamas de fogo.

Yawara agora corria desesperado e latindo por todo lado. O calor das chamas cada vez mais próximas me envolvia por completo. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto tomado de pânico, enquanto meus olhos procuravam desesperadamente uma brecha para as árvores. Inutilmente, entretanto. Até onde eu podia ver, o fogo tomava conta de tudo, se aproximando rapidamente. Já estava quase sentando para esperar a morte, quando um homem surgiu ao meu lado, preso por cintos, e com uma corda nas costas.

Olhei para cima, apertando os olhos por causa da fumaça, e pude distinguir a sombra de um helicóptero no alto. O homem correu até mim e começou a me prender com cintos também. Antes que eu pudesse impedir, porém, Yawara saiu correndo e sumiu dentro da minha cabana. Eu agora me debatia no colo do homem que me continha berrando por Yawara. Apesar dos meus esforços, ele não me largou, e eu senti que estava sendo erguida pela corda as minhas costas no exato momento que Yawara saia da cabana, correndo, com a única lembrança que eu tinha da minha mãe segura na boca. Uma pulseira. Eu berrava e me debatia mais do que nunca enquanto Yawara corria para onde eu estava, agora a pouco mais de um metro do chão, mas os cintos eram mais fortes. Continuei lutando por alguns segundos, mas quando olhei pra baixo de novo, não tinha mais Yawara. Só fogo. A aldeia estava tomada de chamas, e eu já me encontrava a cinco metros do chão, subindo cada vez mais. Lágrimas quentes rolaram pelo meu rosto quando escutei o que podia ser um latido fraco, e eu não tinha mais forças para gritar. Meu corpo amoleceu e uma dor que eu nunca havia experimentado antes, e que nada tinha a ver com as tiras e cintos que me puxavam e apertavam, quase cortando minha pele, tomou conta de mim. Senti mãos me puxando para dentro do helicóptero antes de ceder à pressão das minhas pálpebras e deixar a escuridão e o calor invadirem cada pedaço de mim.

Me lembro quando acordei em algum hospital, em alguma cidade qualquer. Explicaram-me que, sem saber da  existência da minha aldeia, os homens haviam posto fogo na floresta que a envolvia. Experimentei a indiferença completa pela primeira vez. Também disseram que eu iria para um orfanato, e lá ficaria até atingir a maioridade, caso não fosse adotada. A sensação foi a mesma. Não sabia quem mais sobrevivera e tampouco me importava.

Só conseguia pensar que Yawara estava morto. Morrera, eu repetia para mim mesma, tentando entender. Morrera por perder sua chance de fugir, como todos os outros, e ficar me lambendo até eu acordar. Morrera porque foi correndo buscar a pulseira da minha mãe para mim, ao invés de ficar. Morrera pela ignorância dos homens, capazes de colocar fogo numa floresta imensa, onde antes viviam pessoas. Morrera, acabara. Nunca mais eu iria dormir ao seu lado, correr com ele, ou abraçá-lo. Nunca mais tomaria banho no lago com ele, nem colheria frutos na floresta protegida pelos seus sentidos aguçados, caso algum bicho se aproximasse. Acabara, morrera, e eu queria morrer também.

Me senti assim por semanas, indiferente a todo o resto. A vida no orfanato era monótona, e acabei repelindo qualquer tentativa de aproximação dos demais.  Ao contrário do que as pessoas me diziam, o tempo não cura tudo, e pouco mais de um ano depois, sentada na minha cama, eu me sentia exatamente igual. Não havia um só dia em que eu não havia pensado no que acontecera, e muitos poucos em que eu não acordara no meio da noite, após sonhos vívidos e impiedosos.

Recostei a cabeça novamente nos travesseiros e fechei os olhos. Sabia que daqui um mês, ou dez anos, estaria do mesmo jeito. Queria morrer também, e me juntar aos outros. Queria estar com mamãe, e papai. E, acima de tudo, queria Yawara. Queria Yawara comigo, para sempre.

18.7.11

Pra começar

Uma vez minha professora favorita disse:

"Escrever não é fácil... Mas o homem é palavra. Nós somos palavra. E, neste sentido, precisamos enfrentar o desafio (e o dilema) de lidar com ela. Sem o pleno domínio das palavras, corremos o risco de sermos seres amputados, pois é com elas e através delas que aquilo que somos, pensamos e cremos se traduz para nós mesmo e para os outros. 
[...] Portanto, se difícil é a tarefa, não é menos prazerosa, pois o mar das palavras pode nos levar a viagens inesquecíveis. [...] E, no final, a viagem valerá a pena, pois 'tudo vale a pena...' e, temos certeza, nossas almas não são pequenas."

Concordo com tudo o que tá aí em cima; por isso que citei. Que professora? Pra quem ainda não sabia, acho que ela merece os devidos créditos. Foi a Ana Claúdia. Mas enfim.

Adoro escrever, por isso tô aqui. Sem compromisso, sem promessas, nem nada. Já escrevi muitos textinhos (ou poemas, chame como quiser), histórias, e até o 'livro não terminado' que aparentemente todo mundo tenta um dia. Vou publicar o que der vontade, e boa. Talvez comente sobre algum acontecimento específico, ou qualquer outra coisa. Talvez eu até poste o primeiro capítulo do meu livro-sem-fim aqui. De qualquer jeito, bem-vindos. 

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