O calor das chamas cada vez mais próximas me envolvia por completo. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto tomado de pânico, enquanto meus olhos procuravam desesperadamente uma brecha para as árvores. A cena mudou. Eu me debatia no colo do homem que me continha, gritando por Yawara. Ouvi ao longe um latido fraco, seguido de um grito profundo, desesperado, e cheio de dor.
Acordei assustada, pingando suor. Me sentei na cama e olhei para os lados. Silêncio. Eu mesma que havia gritado. Respirei fundo, tentando recuperar o fôlego. Era impossível não lembrar agora, e a tragédia daquele dia se passou como um filme nos minutos seguintes.
Nasci numa pequena aldeia cercada por uma vasta floresta. Minha mãe morreu no parto, e foi meu pai quem me criou. Nós tínhamos um cachorro, Yawara. Ele ainda era um filhote quando eu nasci, e cresceu comigo. Era grande e peludo, e embora eu não soubesse sua raça, me lembrava um labrador. Quando meu pai morreu, alguns dias depois do meu aniversário de nove anos, Yawara passou a ser a coisa mais importante da minha vida. Algumas pessoas da aldeia entendiam meu isolamento, e ficavam com dó. Outras, indiferentes, simplesmente não se importavam. Eu não fazia idéia de que algo mais marcante do que a morte do meu pai estava para acontecer. Não me entenda mal, eu sofri com a perda do meu pai. Ele que me criara e eu o amava muito. Mas depois disso, acabei criando uma relação de absurda dependência com a única coisa que me restava.
Naquele dia, eu estava dormindo numa rede com Yawara ao meu lado, e dormia tão profundamente que, a princípio, a correria e os gritos a minha volta não me acordaram. Somente quando Yawara começou a latir e me lamber que despertei. Apenas uma olhada em volta foi suficiente para eu perceber que tinha alguma coisa muito errada. Não havia mais gritos, e a aldeia não estava mais cheia de gente. Pelo contrário, estava vazia, com objetos caídos aqui e ali, terra pisoteada, e cercada de altas chamas de fogo.
Yawara agora corria desesperado e latindo por todo lado. O calor das chamas cada vez mais próximas me envolvia por completo. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto tomado de pânico, enquanto meus olhos procuravam desesperadamente uma brecha para as árvores. Inutilmente, entretanto. Até onde eu podia ver, o fogo tomava conta de tudo, se aproximando rapidamente. Já estava quase sentando para esperar a morte, quando um homem surgiu ao meu lado, preso por cintos, e com uma corda nas costas.
Olhei para cima, apertando os olhos por causa da fumaça, e pude distinguir a sombra de um helicóptero no alto. O homem correu até mim e começou a me prender com cintos também. Antes que eu pudesse impedir, porém, Yawara saiu correndo e sumiu dentro da minha cabana. Eu agora me debatia no colo do homem que me continha berrando por Yawara. Apesar dos meus esforços, ele não me largou, e eu senti que estava sendo erguida pela corda as minhas costas no exato momento que Yawara saia da cabana, correndo, com a única lembrança que eu tinha da minha mãe segura na boca. Uma pulseira. Eu berrava e me debatia mais do que nunca enquanto Yawara corria para onde eu estava, agora a pouco mais de um metro do chão, mas os cintos eram mais fortes. Continuei lutando por alguns segundos, mas quando olhei pra baixo de novo, não tinha mais Yawara. Só fogo. A aldeia estava tomada de chamas, e eu já me encontrava a cinco metros do chão, subindo cada vez mais. Lágrimas quentes rolaram pelo meu rosto quando escutei o que podia ser um latido fraco, e eu não tinha mais forças para gritar. Meu corpo amoleceu e uma dor que eu nunca havia experimentado antes, e que nada tinha a ver com as tiras e cintos que me puxavam e apertavam, quase cortando minha pele, tomou conta de mim. Senti mãos me puxando para dentro do helicóptero antes de ceder à pressão das minhas pálpebras e deixar a escuridão e o calor invadirem cada pedaço de mim.
Me lembro quando acordei em algum hospital, em alguma cidade qualquer. Explicaram-me que, sem saber da existência da minha aldeia, os homens haviam posto fogo na floresta que a envolvia. Experimentei a indiferença completa pela primeira vez. Também disseram que eu iria para um orfanato, e lá ficaria até atingir a maioridade, caso não fosse adotada. A sensação foi a mesma. Não sabia quem mais sobrevivera e tampouco me importava.
Só conseguia pensar que Yawara estava morto. Morrera, eu repetia para mim mesma, tentando entender. Morrera por perder sua chance de fugir, como todos os outros, e ficar me lambendo até eu acordar. Morrera porque foi correndo buscar a pulseira da minha mãe para mim, ao invés de ficar. Morrera pela ignorância dos homens, capazes de colocar fogo numa floresta imensa, onde antes viviam pessoas. Morrera, acabara. Nunca mais eu iria dormir ao seu lado, correr com ele, ou abraçá-lo. Nunca mais tomaria banho no lago com ele, nem colheria frutos na floresta protegida pelos seus sentidos aguçados, caso algum bicho se aproximasse. Acabara, morrera, e eu queria morrer também.
Me senti assim por semanas, indiferente a todo o resto. A vida no orfanato era monótona, e acabei repelindo qualquer tentativa de aproximação dos demais. Ao contrário do que as pessoas me diziam, o tempo não cura tudo, e pouco mais de um ano depois, sentada na minha cama, eu me sentia exatamente igual. Não havia um só dia em que eu não havia pensado no que acontecera, e muitos poucos em que eu não acordara no meio da noite, após sonhos vívidos e impiedosos.
Recostei a cabeça novamente nos travesseiros e fechei os olhos. Sabia que daqui um mês, ou dez anos, estaria do mesmo jeito. Queria morrer também, e me juntar aos outros. Queria estar com mamãe, e papai. E, acima de tudo, queria Yawara. Queria Yawara comigo, para sempre.