19.7.20

revolução; substantivo feminino, 1. ato ou efeito de revolucionar(-se), 2. o retorno periódico de um corpo astral a um ponto da própria órbita

eu preciso do mundo em suspensão
por um instante só
que me permita enxergar se esses ciclos são mesmo ciclos
se é tudo assim, repetitivo
se é tudo assim, repetitivo
se 
é
tudo
assim,
repetitivo.


15.7.20

tomara que você de quebra não tenha pego covid-19

olho pra gente como que de fora. nós dois no banheiro tirando a roupa entre cansaço e riso às 7 horas da manhã. "a gente não imaginou assim, né?" 

você vai em direção ao chuveiro, mas para. eu te abraço por trás. ficamos imóveis por um tempo, corpo no corpo, cabisbaixos. você ama a sensação da minha pele na sua e eu amo o seu calor. respiramos fundo.

depois entramos no chuveiro e tomamos banho devagar. tentamos enxaguar a madrugada-de-hospital de nós. foram mais de seis horas entre nervoso e tristeza de um jeito que eu acredito nunca ter sentido antes.

conversamos baixinho e com ternura. eu já estive nua contigo inúmeras vezes, mas nunca tanto assim. eu passo a me conhecer um pouco mais só de ver o que tem de mais fundo em mim compreendido e refletido em você. nossa intimidade é indescritível. não é desse planeta. 

você já não está tão pálido e observa minhas olheiras e olhos inchados. eu deixo a água quente molhar minhas costas inteiras repetidas vezes na tentativa de relaxar. sua voz de choro enquanto dirigia dizendo que tem "medo de morrer assim" não sai da minha cabeça.

queria te levar embora, te transportar pra um outro mundo, qualquer outro mundo. 

mais tarde você me diria que se existem várias realidades, nosso consolo pode ser que em alguma delas nós estamos bem e juntos como gostaríamos de estar. como estaríamos nessa, se as coisas fossem diferentes. se nós fôssemos diferentes. mas não são e não somos.

em tempo eu quero escoar todas as cenas da emergência pra fora de mim. mas se acontecer de novo, vou estar lá. todas as vezes, em todas as realidades.

enquanto isso, falamos de tudo. tudo mesmo. em algum momento sinto uma ânsia de conseguir aproveitar e guardar bem essas horas imersas na gente. mas não tem por quê. isso já aprendemos. quando estamos, estamos. 

a sorte é que, mesmo agora e com as lembranças mais duras, na minha cabeça também fica o seu carinho comigo. é tão intenso e tão de verdade que às vezes eu fico na espera de que se materialize na forma de qualquer coisa boa. eu queria que se materializasse na forma de qualquer coisa boa. 

tá tudo doendo. por hoje durmo sem hora pra acordar.
durmo, durmo e talvez sonho.

e algum dia,
quiçá em algum sonho,
a gente se reencontra. até lá, fica bem. fica bem por você. 

29.5.20

There was once a young lady who craved for connection.

- My so little addressed romanticism is undeniable, and I am afraid it has made quite a fool out of me. Still, I am not sorry for it. I am much sorrier for you. At least for my sake I may affirm without fear of arrogance that I have been steadily honest to myself if not to everyone around me, and that I also raised all the necessary courage to endure the feelings which sprung so fiercely on my heart. 
If we could only but say half as much of yourself. If you had only but owned up your so-called incomparable feelings for me before I was able to perceive whom you truly were through much less bewitched eyes. But now it is done for and I dare say there is no coming back from it. Should I be glad to be spared of the late discovery of your faulty character or else mourn upon the fact that I will die without acknowledging the taste of our first kiss under the sweet influence of such deep emotions as mine were?

And before he could speak, she concluded:

- B
ut please, dear sir, do not go through the trouble of responding such an explicit discourse. Unless, of course, you intend simply to amuse me, for I can assure you that I have never cared less for your opinions than I do now.

9.3.20

chove lá fora e aqui faz tanto frio me dá vontade de saber

A chuva tá batendo tão forte do lado de fora que parece que quer derrubar o prédio. Não. Parece que vai derrubar o prédio. Agora mesmo Vitória pediu que o namorado desencostasse da parede. Vai que a parede inteira cai. Facilmente, me enxergo de pé diante de um buraco imenso no meu apartamento, encarando os dezessete andares de queda sem parapeito como quem simplesmente olha intrigada pro mar (que por sinal, tá logo ali atrás) em dia de maré braba. Cabelos esvoaçando e tocando meu rosto com firmeza. O cheiro de sal que chegaria de vez e as gotas d’água frescas de arrepiar. Por mim essa parede cai agora. Mas não cai. Ainda assim, o vento uiva com os pulmões de cem lobos. Nada é tão do lado de fora assim, penso, porque aqui dentro acontece a mesma coisa. A minha chuva, quando vem, parece que quer (parece que vai) derrubar a carcaça que eu carrego pra cima e pra baixo todos os dias. Ela é muito mais do que cabe aqui dentro, e demanda espaço. Eu entendo, também sou espaçosa. E se eu pudesse também derrubava um prédio. Será que posso? Derrubava tudo. Derrubava os meus e os seus muros, mas principalmente os seus, porque os meus tão em processo de corrosão desde aquele dia em que eu de fato conversei com a minha chuva. A mesma que tenta derrubar minha carcaça. Se ao menos você não tivesse medo de se molhar, eu te mostrava. Eu te molhava. E nós uivaríamos com os pulmões de mil lobos.


19.2.20

de 18/06/2019

eu não aguento mais
ou mais especificamente eu não quero aguentar mais
eu não quero tentar aguentar mais
nem querer tentar aguentar mais

eu tô exausta
no alto do fim dos meus míseros 21 anos eu tô exausta do mundo
e principalmente eu tô exausta de mim
esse mim que eu praticamente desconheço e que ainda assim toma conta de tudo que existe nesse corpo-cabeça-coração

eu não quero ter nenhum laço com nada que seja real
às vezes acho que a única profissão possível de fato pra mim é ser atriz
porque às vezes só me enxergo sobrevivendo assim
constantemente sendo outra
enterrando cada vez mais aquilo que é minha essência pra ser outras tantas versões possíveis dessa matéria prima

como água
qual é o formato verdadeiro da água?
água que é rio
lago
mar
oceano
água que é neblina
nuvem
chuva
tempestade
vapor
eu nem sei o que é a água no final
e queria ser assim

touch
me
I
turn
to
water

Ocean rushed down my throat,
needing to ride my heart,
succeeding only in drowning me.
-Sophie 

Foi assim que eu entendi "esperança"

Todas as noites, antes de dormir, eu me faço a mesma pergunta: como eu posso te dizer tudo o que tenho pra dizer? Então, todos os dias, quando eu acordo, vasculho meus sonhos em busca da resposta; como eu posso te dizer tudo o que tenho pra dizer? Se quando você me pergunta, eu perco o fôlego. A boca seca, a fala hesita, e só os olhos não se desviam (são mais fortes do que o resto de mim). E foi numa tarde qualquer, dessas em que eu corro a minha mão pelas suas costas até o sol ruborizar, que eu encontrei a resposta. Meu dedos formaram letras na sua pele, letras que formaram palavras, e pela primeira vez eu te disse tudo o que eu tenho pra dizer. Agora, todas os dias e tardes e noites, paciente, mas de pulso acelerado, eu anseio pelo momento em que você vai compreender uma língua que nem conhece ainda.

22.1.20

Salvador amanheceu tempestuosa

O horizonte cinza borrado entre céu e mar assemelha-se às bordas da minha própria memória. Entre o branco e o preto (nunca branco, nem preto) demarcam-se as fronteiras dos meus pensamentos. Os passarinhos cinza-escuros que, de asas molhadas, lutam contra o choro das nuvens são minhas dúvidas e certezas, e eu sorrio ao perceber que eles voam perto e voam bem, mesmo quando sozinhos. Abro a janela para receber o vento vindo das margens da minha mente no rosto, e as gotas d'água, minhas emoções, me recebem de volta, em dança e festividade. Estou céu e mar, brisa e voo, beira e chuva. E por hoje não há beleza maior que esse cinza infinito.

6.12.19

me procure!

me procure quando quiser uma dose extra de honestidade
ou quando precisar de um olhar atento
me procure por um colo, uma palavra calma
quando for olhar o céu
ou passar um café amargo
me procure

só lembre de me deixar antes que as coisas fiquem sérias demais
antes que os nossos olhares se encham d'água
lembre de me deixar antes que as perguntas voltem
ou que o toque eletrize

me procure quando precisar de mim,
mas, pelo amor de deus,
me deixe antes que eu precise de você.

4.12.19

O box de vidro

<aka minha primeira crônica> 

Sábado de manhã eu fiquei presa dentro de um box de vidro, dentro do banheiro na casa do meu ex-namorado, que vamos chamar de T. A porta do box estava seriamente emperrada pra fora do trilho, e a porta do banheiro trancada por dentro, de forma que eu comecei o dia duplamente prisioneira.

Nua, com medo de abrir o box à força e o vidro explodir em mil pedaços (coisa que tinha acontecido recentemente com o mesmíssimo box do banheiro dos fundos), eu chamei T. Ele veio em meu socorro e, naturalmente, tentou abrir a porta. Estava trancada. “Por que você trancou a porta?” perguntou, surpreso. 

Boa pergunta. Por que diabos eu tranquei a porta do banheiro? Não é algo que eu costume fazer. Logo antes disso acontecer, nós dois tivemos uma discussão boba, incitada por mim que, além de tudo, tinha um compromisso de trabalho em meia hora. Eu me chateei, fui tomar banho e... tranquei a porta do banheiro. Bingo! Foi um gesto de rebeldia.

Mas rebeldia contra quem? T não tinha feito nada demais, e mesmo que tivesse, do que adiantaria eu virar uma chave? Pensei na representação simbólica do espaço em que me encontrava. Talvez seja o banheiro o lugar em que nós fiquemos mais vulneráveis. Definitivamente, nua e presa dentro do box, eu estava me sentindo bem vulnerável. Bingo! Foi um gesto metafórico.

Eu tranquei a minha vulnerabilidade comigo no banheiro porque queria que estivéssemos nós duas ali, a sós, protegidas do mundo, unidas em nosso despir. Vocês estão acompanhando? Talvez soe confuso, mas juro que faz sentido. Eu sou exatamente o tipo de pessoa que coloca um muro entre as minhas verdades mais profundas – as minhas vulnerabilidades – e o resto do mundo. Pior: eu sou o tipo de pessoa que faz isso ao mesmo tempo que se sente terrivelmente só e deseja, mais do que  tudo, ser acessada, compreendida e estar verdadeiramente conectada com os outros. Bingo novamente...

Quase posso ouvir T suspirar e dizer, entre doçura e cansaço: “Você precisa problematizar menos as coisas.”. É verdade, eu preciso. Mas o universo tem sempre um jeitinho de nos testar, não é? E eis que estou eu, duplamente prisioneira da minha própria auto sabotagem. Se ao menos eu não tivesse trancado a porta do banheiro... T poderia entrar, me dar umas roupas, um óculos de proteção, luvas, botas e quem sabe um capacete, e eu poderia desemperrar o box de vidro à força e sem medo.

Mas a minha única companhia possível era o chuveiro. O chuveiro, cheio d’água como eu, o xampu e a plena noção de que, se eu pudesse, me trancava triplamente até, pra depois me indignar pensando: por que ninguém vem até aqui? Por que ninguém chega, por que ninguém me ajuda? Eu quero ser conhecida, eu quero ser acessada, eu quero estar conectada.

Alguém deveria me dizer que, em geral, é bom que a gente cuide de ter uma coerência entre o que queremos e o que fazemos. Não, T já me disse isso... Aliás, eu mesma já disse isso pra ele. O que, de qualquer forma, não me impediu de estar tão nua quanto possível (sem roupas e, a essa altura, sem filtros) e prisioneira no cômodo mais suspeito da casa do meu ex. E então? 

Então, como uma criança, eu teria que aprender as consequências dos meus atos. Não tinha jeito. Agora eu teria que abrir o box à força, deixar o vidro estilhaçar, o sangue correr e a porta destrancar. Quem sabe a partir daí eu poderia usar a deixa das certamente visíveis cicatrizes para me abrir mais ao mundo, em conformidade com o que tanto quero. Eu poderia dizer “Ah, essas cicatrizes? Foi um dia em que eu tranquei minhas vulnerabilidades à chave e tive que explodir a porta pra sair. Aliás, você aceita tomar um chá e ouvir sobre quem eu realmente sou? Adoraria ser acessada e estou finalmente disponível!”. 

E logo quando eu estava fazendo um mapa mental de tudo que iria desenterrar do fundo de mim, tremendo e arrepiando, a porta abriu. Se foi Deus? Não, foi T. Ele encontrou uma chave mestra e abriu a porta do banheiro. Não só isso, mas ele também me deu roupas e desemperrou o box que, no fim das contas, nem explodiu. Ele também me deu um abraço depois, com quê de desgaste. A gente se estressou bastante no processo de me libertar.

No fim, eu não me atrasei tanto pro meu compromisso de trabalho, não fiquei com nenhuma cicatriz e ainda fui obrigada a admitir o seguinte: não é bom se trancar duplamente em lugar nenhum, metaforicamente ou não, principalmente se você, na verdade, deseja estar livre de todas as portas, convivendo em liberdade com todos os outros seres complexados do mundo. E, mesmo que em algum momento isso te pareça uma boa ideia, pense duas vezes – é bem capaz que alguém escute seu pedido de socorro, resolva te ajudar, consiga abrir não só uma, mas as duas portas, e te prove que essa história de estar profundamente sozinha é balela. Aí só vai sobrar a vergonha de ter ficado quarenta minutos nua presa dentro de um box que, no fim, era relativamente inofensivo. Bingo! Mais um medo não justificado.  

Dito tudo isso, à vocês só peço uma coisa: não saiam compartilhando, ok? Eu ainda estou em fase de negociação com as minhas vulnerabilidades. Tenham paciência. Qualquer dia a gente convida o mundo todo pra tomar um chá. Na sala! Não no banheiro.

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