1.12.20

 não sei se tô aqui pra viver algum tipo de karma que me faz estender a mão tantas vezes. mas eu estendo. com o tempo deixei de ter medo de não encontrar nada e tateio no escuro sempre que posso a procura do toque. do toque que já esteve ali. dos dedos mindinhos que fizeram promessas. a vida inteira parece muito pra muita gente, mas é só começo pra mim. o começo do tempo que passaríamos juntos. de todas as formas. 

30.9.20

abri essa página e percebi que, pela primeira vez em um bom tempo, estava em vias de deixar passar dois meses inteiros sem estar aqui. 

e é pelo desejo de que isso não aconteça que escrevo; mas escrever o quê? é foda quando a garganta tá muda. 

ontem eu me vi tão desamparada que fui conversar com a sua irmã [na falta da minha, que está internada. mais uma vez. de novo. e no meu terror minimalista eu aguardo o desenrolar do ciclo. mas isso já é outro post, né?] fui conversar com a sua irmã pra sentir que ainda existe uma ligação, mesmo que podada, mesmo que machucada. tão machucada. 

chegou a minha vez, afinal, de estar machucada. e de pedir socorro. mas a quem? você não está. você faz questão de não estar. 

minha criança tem tido tantas perguntas bobas e amedrontadas pro mundo. eu tenho me sentido sozinha num tanto que me dá medo. fazia tempo. 

queria dizer que vou tentar voltar pra cá, que vou tentar voltar pra mim, mas é mentira. 

eu precisaria de uma mão pra me puxar daqui. uma mão, um braço, talvez um corpo inteiro. mas tudo em volta de mim é silêncio e nem o meu próprio corpo existe mais. tudo é fragmento. tudo é alucinação. tudo é a breve ilusão daquela ligação que mantinha a minha fé na vida viva. mantinha. no pretérito. 

e nessa nova realidade, você tá sumindo. involuntariamente, te acompanho. sinto que qualquer dia desses eu vou evaporar e virar nuvem. tomara. e tomara que lá em cima haja paz. 

19.7.20

revolução; substantivo feminino, 1. ato ou efeito de revolucionar(-se), 2. o retorno periódico de um corpo astral a um ponto da própria órbita

eu preciso do mundo em suspensão
por um instante só
que me permita enxergar se esses ciclos são mesmo ciclos
se é tudo assim, repetitivo
se é tudo assim, repetitivo
se 
é
tudo
assim,
repetitivo.


15.7.20

tomara que você de quebra não tenha pego covid-19

olho pra gente como que de fora. nós dois no banheiro tirando a roupa entre cansaço e riso às 7 horas da manhã. "a gente não imaginou assim, né?" 

você vai em direção ao chuveiro, mas para. eu te abraço por trás. ficamos imóveis por um tempo, corpo no corpo, cabisbaixos. você ama a sensação da minha pele na sua e eu amo o seu calor. respiramos fundo.

depois entramos no chuveiro e tomamos banho devagar. tentamos enxaguar a madrugada-de-hospital de nós. foram mais de seis horas entre nervoso e tristeza de um jeito que eu acredito nunca ter sentido antes.

conversamos baixinho e com ternura. eu já estive nua contigo inúmeras vezes, mas nunca tanto assim. eu passo a me conhecer um pouco mais só de ver o que tem de mais fundo em mim compreendido e refletido em você. nossa intimidade é indescritível. não é desse planeta. 

você já não está tão pálido e observa minhas olheiras e olhos inchados. eu deixo a água quente molhar minhas costas inteiras repetidas vezes na tentativa de relaxar. sua voz de choro enquanto dirigia dizendo que tem "medo de morrer assim" não sai da minha cabeça.

queria te levar embora, te transportar pra um outro mundo, qualquer outro mundo. 

mais tarde você me diria que se existem várias realidades, nosso consolo pode ser que em alguma delas nós estamos bem e juntos como gostaríamos de estar. como estaríamos nessa, se as coisas fossem diferentes. se nós fôssemos diferentes. mas não são e não somos.

em tempo eu quero escoar todas as cenas da emergência pra fora de mim. mas se acontecer de novo, vou estar lá. todas as vezes, em todas as realidades.

enquanto isso, falamos de tudo. tudo mesmo. em algum momento sinto uma ânsia de conseguir aproveitar e guardar bem essas horas imersas na gente. mas não tem por quê. isso já aprendemos. quando estamos, estamos. 

a sorte é que, mesmo agora e com as lembranças mais duras, na minha cabeça também fica o seu carinho comigo. é tão intenso e tão de verdade que às vezes eu fico na espera de que se materialize na forma de qualquer coisa boa. eu queria que se materializasse na forma de qualquer coisa boa. 

tá tudo doendo. por hoje durmo sem hora pra acordar.
durmo, durmo e talvez sonho.

e algum dia,
quiçá em algum sonho,
a gente se reencontra. até lá, fica bem. fica bem por você. 

29.5.20

There was once a young lady who craved for connection.

- My so little addressed romanticism is undeniable, and I am afraid it has made quite a fool out of me. Still, I am not sorry for it. I am much sorrier for you. At least for my sake I may affirm without fear of arrogance that I have been steadily honest to myself if not to everyone around me, and that I also raised all the necessary courage to endure the feelings which sprung so fiercely on my heart. 
If we could only but say half as much of yourself. If you had only but owned up your so-called incomparable feelings for me before I was able to perceive whom you truly were through much less bewitched eyes. But now it is done for and I dare say there is no coming back from it. Should I be glad to be spared of the late discovery of your faulty character or else mourn upon the fact that I will die without acknowledging the taste of our first kiss under the sweet influence of such deep emotions as mine were?

And before he could speak, she concluded:

- B
ut please, dear sir, do not go through the trouble of responding such an explicit discourse. Unless, of course, you intend simply to amuse me, for I can assure you that I have never cared less for your opinions than I do now.

9.3.20

chove lá fora e aqui faz tanto frio me dá vontade de saber

A chuva tá batendo tão forte do lado de fora que parece que quer derrubar o prédio. Não. Parece que vai derrubar o prédio. Agora mesmo Vitória pediu que o namorado desencostasse da parede. Vai que a parede inteira cai. Facilmente, me enxergo de pé diante de um buraco imenso no meu apartamento, encarando os dezessete andares de queda sem parapeito como quem simplesmente olha intrigada pro mar (que por sinal, tá logo ali atrás) em dia de maré braba. Cabelos esvoaçando e tocando meu rosto com firmeza. O cheiro de sal que chegaria de vez e as gotas d’água frescas de arrepiar. Por mim essa parede cai agora. Mas não cai. Ainda assim, o vento uiva com os pulmões de cem lobos. Nada é tão do lado de fora assim, penso, porque aqui dentro acontece a mesma coisa. A minha chuva, quando vem, parece que quer (parece que vai) derrubar a carcaça que eu carrego pra cima e pra baixo todos os dias. Ela é muito mais do que cabe aqui dentro, e demanda espaço. Eu entendo, também sou espaçosa. E se eu pudesse também derrubava um prédio. Será que posso? Derrubava tudo. Derrubava os meus e os seus muros, mas principalmente os seus, porque os meus tão em processo de corrosão desde aquele dia em que eu de fato conversei com a minha chuva. A mesma que tenta derrubar minha carcaça. Se ao menos você não tivesse medo de se molhar, eu te mostrava. Eu te molhava. E nós uivaríamos com os pulmões de mil lobos.


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